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Podia ter sido algures no México…

Mas foi em Oaxaca, região indígena e rebelde, de cabeça digna e levantada. Peço perdão, não foi só em Oaxaca, é assim no México, é quotidiano: a infâmia diária de um país desgovernado que aparece aos olhos do mundo como uma economia emergente mas que não consegue esconder as suas crescentes desigualdades.

O recente ataque a uma caravana humanitária, cercada por paramilitares próximos ao PRI (Partido Revolucionário Institucional que governou o país durante 70 anos seguidos), que deixou dois mortos (a activista Alberta Cariño, directora do Centro de Apoio Comunitário Trabajando Unidos (Cactus), e o finlandês Juri Jaakkola, um observador de direitos humanos, ambos com disparos na cabeça) é apenas um episódio que não podia ser silenciado. Mas é apenas mais um episódio, quase quotidiano, de ameaças, sequestros e de um clima de medo nesta região, onde a população indígena é medida em correspondência ao seu empobrecimento.

O problema não é só Oaxaca, é o México e o triunfo do neo-liberalismo na sua pior medida. Um país com cerca de 110 milhões de habitantes onde 60 vivem abaixo do limiar da pobreza é um país que não consegue garantir segurança. É um país entregue aos caprichos gananciosos de empresas transnacionais que consegue multiplicar o número de pobres à medida que os multimilionários crescem. São aos milhões as mãos disponíveis para trabalhar, tanto do outro lado da fronteira, como nas fábricas multinacionais transformadas em pequenos EUA nas regiões pobres do México.

E num país onde a segurança quotidiana e os direitos não estão garantidos, a violência transforma-se em negócio. A democracia é substituída pelo fogo das armas e quem dita as regras do jogo são empresas imaculadas pela "legitimidade" dos números de Wall Street. A droga e as armas são negócios suculentos que arrastam milhares de pessoas para onde está o dinheiro. E é fácil conseguir quem se junte a ele. Quando o emprego não está garantido, quando a educação privada afasta quem mais necessita dela, quando a saúde é um favor garantido a quem pode pagar, garantida está qualquer forma desumana de sobrevivência.

No Norte, Filipe Calderón, o presidente fraudulento e ilegítimo do país utiliza o exército estatal para combater o cartel rival em Ciudad Juárez. No sul, enquanto morriam Alberta Cariño e Juri Jaakkola, este simpático senhor de negócios, procurava novos acordos com Angela Merkel.

No sul... Nesse sul povoado pel@s mais últim@s d@s últim@s. Oaxaca, Chiapas... O lugar onde vivem @s que não dão lucro, @s que não consomem, e @s que têm o desplante de lutar por uma vida digna, uma vida que não siga o rumo ditado pelos homens e mulheres de negócios.

Oaxaca levantou-se em 2006 e pagou por isso. Vicente Fox, do PAN, no poder, enviou o exército para reprimir uma revolta que perigosamente crescia e se poderia alastrar. Agora, o seu sucessor Calderón e amigos querem destronar o PRI que ainda domina este município. O Grupo paramilitar Unión de Bienestar Social para la Región Triqui (Ubisort), ligado ao PRI parece ainda assegurar a permanência de Ulises Ruiz, o governador da região. Agora teme-se que Calderón use uma vez mais o exército, aproveitando a desculpa, para militarizar a região e assegurar os seus interesses pessoais. Assim se faz política no México, aparentemente...

Isto, porque no meio das armas e dos interesses económicos ainda há milhares de pessoas que teimam em acreditar que a política se faz com dignidade e coragem. Que acreditam que a justiça não será um tema a ser tratado por arqueólogos. Que os direitos humanos não serão a miragem que se esfuma ao longe, mas que é de perto que eles são vividos e celebrados. Que tudo isto será possível no dia em que a terra e os seus recursos pertençam aos que nela trabalham, às que dela tratam e que a vida deixará de ser um negócio.

Sobre o/a autor(a)

Activista anti-racista
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