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O topo da carreira empresarial

Marcelo Rebelo de Sousa resumiu tudo: com a contratação pela Goldman Sachs, Durão Barroso chegou ao “topo da sua carreira empresarial”.

A Goldman Sachs é uma empresa mítica. Um dos maiores bancos de investimento do mundo, os seus resultados em 2007, na véspera do início da crise financeira, ultrapassavam o PIB de pelo menos cem países do mundo. Não se preocupe, estão perfeitamente recuperados agora e voltaram ao lugar em que dominam a finança.

Este progresso foi feito por uma mistura de ousadia e de favores. O economista John Kenneth Galbraith, num dos livros mais famosos consagrados ao crash de 1929, o que iniciou a Grande Depressão, dedica um capítulo ao surgimento da GS: “In Goldman Sach we trust” é o título, invocando o que está escrito na nota de dólar, onde conta como as primeiras grandes operações especulativas iniciaram este império.

A partir daí, a rota para o sucesso estava traçada. Uma estratégia de poder foi sempre um elemento essencial para a vitória e, se hoje listamos os decisores políticos, a Goldman Sachs tem uma história brilhante: Mario Draghi à frente do BCE, Mark Carney à frente do Banco de Inglaterra, o primeiro-ministro da Austrália, quatro dos seis últimos ministros das finanças dos EUA (o título é Secretário do Tesouro), um ex-presidente do Banco Mundial, Romano Prodi, que foi primeiro-ministro de Itália e presidente da Comissão Europeia, Mario Monti, ex-primeiro-ministro de Itália, Papademos, ex-primeiro ministro da Grécia, e muitos outros decisores. Em Portugal, até agora eram só António Borges, que foi chefe da GS para a Europa e que regressou à pátria para coordenar as privatizações de Passos Coelho, Carlos Moedas, agora comissário europeu, e Moreira Rato, que dirigiu a gestão da dívida pública durante o consulado passista. Junta-se-lhes agora, no “topo da sua carreira empresarial”, Durão Barroso.

Merece? Merece. É o topo? Sim. Agora, o problema é mesmo a “carreira empresarial”. Fiquem então os leitores esclarecidos: Durão Barroso, que foi chefe do PSD, depois primeiro-ministro de Portugal e depois presidente da Comissão Europeia, estava a percorrer a sua “carreira empresarial”, até chegar agora ao topo, ao Olimpo da finança, onde é chairman e, biscate aparte, consultor de si próprio quando tiver interrogações sobre o Brexit, que a vida está difícil. A vida no topo é assim mesmo. O que eles fazem por nós.

Artigo publicado em blogues.publico.pt a 11 de julho de 2016

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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