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Crime no Golfo do México

De um lado, um enorme desastre ambiental. Do outro, activistas assassinados por paramilitares. Centremos as nossas atenções no Golfo do México.

Primeiro, soubemos de mais um acidente numa plataforma petrolífera. Ironicamente, no momento em que Obama anuncia a expansão da exploração de petróleo "offshore", revertendo (mais) uma das suas promessas eleitorais, uma plataforma "offshore" da BP é protagonista do maior desastre ecológico dos últimos anos. A explosão na plataforma não surge como uma novidade para quem tem acompanhado a evolução das actividades da BP, na medida em que esta mega-corporação tem continuamente reduzido as suas despesas com segurança. Com a cumplicidade das autoridades governamentais, a externalização de custos permitiu à aumentar ainda mais os seus enormes lucros.

Sabe-se já que onze trabalhadores terão morrido com a explosão. Entretanto, uma equipa de 2000 trabalhadores tentam conter, sem grande sucesso, a expansão da mancha de petróleo. O governo admitiu que cerca de 5.000 barris de petróleo estarão a ser despejados todos os dias no Golfo do México, mas as imagens de satélite sugerem que a figura real pode ser cinco vezes superior. Caso a estimativa mais pessimista se confirme, estaremos perante o pior derrame de petróleo no mar de sempre, superando o derrame do petroleiro Exxon Valdez, em 1989.

À medida que o preço do petróleo vai subindo, torna-se viável economicamente explorar jazidas petrolíferas no mar, a profundidades cada vez maiores. O problema é que, como este desastre o demonstra, à medida que a profundidade do poço petrolífero aumenta, o risco de acidente também aumenta. A administração Obama, contudo, parece pouco preocupada com este facto, já que não planeia recuar na sua intenção de entregar mais parcelas do oceano às petrolíferas. No mundo capitalista, os lucros deles valem mais que as nossas vidas.

Uns dias depois da explosão da plataforma petrolífera, do outro lado do golfo, um grupo de paramilitares atacava um comboio humanitário. Nele estavam activistas do Centro de Apoio Comunitário Trabalhando Unidos (Cactus), uma organização de defesa dos direitos humanos que tem defendido as comunidades locais de Oaxaca, no México. Após a revolta popular de 2006, contra o corrupto governador local, várias aldeias têm sido alvo de sistemáticos ataques por paramilitares. Desta vez, o ataque fez duas vítimas mortais: a mexicana Alberta Cariño, do Cactus e o finlandês Tyri Antero Jaakkola, observador internacional da organização finlandesa Uusi Tuuli Ry.

Alberta era uma defensora dos indígenas locais e provavelmente terá sido o principal alvo dos paramilitares. Tyri era um activista da Acção para a Justiça Climática, a rede que organizou os recentes protestos durante a Cimeira de Copenhaga. Tendo participado na Cimeira dos Povos de Cochabamba, Tyri voluntariou-se para ajudar a levar alimentos e água para comunidades violentamente reprimidas por um ditador local.

As mortes ilustram a cegueira daqueles que, quando falam de atentados à democracia na América Latina, apontam o dedo à Venezuela. Ao contrário do que dizem muitas notícias, os assassinos não são "bandidos", são membros de um grupo paramilitar criado pelo PRI, o partido que governa o estado de Oaxaca. Como dizia Benicio del Toro no filme "Traffic", no México a lei e a ordem são um negócio.

No final do ano, os representantes dos governos do mundo vão de novo encontrar-se numa cimeira climática, em Cancun, México. Se olharem para Norte, verão um rastro de miséria provocado pela sede de petróleo. Se olharem para Sul, verão um rastro de sangue alimentado por um regime político ditatorial. É de esperar, portanto, que muitos se concentrem em olhar para o seu umbigo. Até ao momento em que sejam forçados a enfrentar a realidade.

Sobre o/a autor(a)

Ricardo Coelho, economista, especializado em Economia Ecológica
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