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Mais esquerda

Em cima da mesa tem estado a questão do investimento público. De um jeito simplista a mensagem que passa é: quem se diz de direita se posiciona contra e que quem se reclama de esquerda se encontra a favor. Como se não fosse possível ter-se um programa de acção governativa que, apesar de fazer, a alto e bom som, a apologia do investimento público, tem posto em prática todo um conjunto de medidas de austeridade que em nada são consonantes com aqueles os objectivos de democracia económica que um governo de esquerda deveria fazer por alcançar.

O PS tem-nos dado a ver, claramente visto, como se pode ter a desfaçatez de, depois de passar os últimos anos a destruir serviços públicos e a destroçar o estado social, vir agora nestes meses defender a ideia de que o investimento público é a solução para a retoma da economia.

A hipocrisia do PS é dupla. Por um lado, até ao ciclo eleitoral de 2009, não teve a mínima preocupação em promover o aumento do investimento público. Por outro, desde então até aqui, passou a defender o aumento desse investimento, não tendo tido a preocupação de garantir que as verbas aí alocadas estavam, de facto, a ser executadas.

Os resultados, evidentemente, estão à vista de todos, sendo disso elucidativa a debilidade dos indicadores económicos. Mais do que isso, a prova de que a perspectiva de que a estratégia que o PS entende ser a melhor para o país está redondamente errada são os efeitos da longa crise social que é bem empírica, bastante perceptível e sobremaneira evidente para um cada vez maior número de portugueses.

Na verdade, a discussão em torno do investimento público deveria focar-se, hoje como nunca, neste tempo em que o desemprego se certifica enquanto o problema fundamental em tantos quotidianos, nos resultados em termos de criação de emprego que o investimento público pode facultar. Ou seja, não discutimos apenas se queremos mais ou menos investimento público, discutimos sim que quantias de despesa pública queremos afectar a projectos susceptíveis de propiciar eventuais benefícios socioeconómicos para as populações. Neste sentido, intentos de criação de mega infra-estruturas na área dos transportes, como o do TGV, a título de exemplo, interessam bastante menos do que um conjunto de programas locais vocacionados para a requalificação urbana. Outra questão se levanta, a de que o investimento público não se resume à lógica do betão, pode e deve ser também sinónimo do fortalecimento dos serviços públicos, aposta que traria não só uma mais elevada democracia social, mas também uma geração, no concreto e no imediato, de novos postos de emprego.

Não esqueçamos que, por mais planos de estabilidade e crescimento que se apresentem com o intuito de contentar as derivas monetaristas de Bruxelas e de aplacar a ira especulativa das malfadadas agências de ratings, enquanto não se for capaz de resolver, de uma vez por todas, o problema basilar que é da incapacidade do mercado de trabalho existente de absorver a mão-de-obra, mais e menos qualificada, que temos disponível, os números do desemprego não vão, de forma alguma, parar de aumentar. Essa metamorfose não sobrevirá somente porque Sócrates vai, de quando, em vez, citar Keynes ao parlamento. É preciso muito mais esquerda do que isso

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