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Brexit (2): os argumentos, à esquerda

Viro-me agora para a esquerda britânica que, perante o condicionamento do referendo pela luta interna das direitas, se vê aprisionada num processo que não desejou, não controla e escassamente influencia.

Num post anterior, comentei os protagonistas que, à direita, dominam a agenda do referendo britânico. Não tinha ainda lido o discurso tremendista do ministro das finanças, Osborne, que demonstrou a mais brilhante forma de fazer campanha pela União Europeia: ameaçar o país com um aumento de impostos e novos cortes nos serviços sociais. Só faltava mesmo esta ameaça para que o elegante painel de protagonistas demonstrasse todo o seu valor. Não acho que seja de espantar que, com tal diligência de Cameron e de Osborne, o seu ministro, a saída esteja a subir nas sondagens.

Viro-me agora para a esquerda britânica que, perante o condicionamento do referendo pela luta interna das direitas, se vê aprisionada num processo que não desejou, não controla e escassamente influencia. Dividida também, a esquerda – deixando de lado os partidos e concentrando-me nos analistas e ideólogos – apresenta razões para o “sim” à saída como para o “não”.

Do lado da saída, Richard Tuck, professor em Harvard, politólogo, argumenta a irreversibilidade dos danos provocados pela UE contra a democracia. Na tradução do blog Ladrões de Bicicletas, escreve ele:

A esquerda britânica corre o risco de prescindir da única instituição que historicamente foi capaz de usar com eficácia – o Estado democrático – a favor de uma ordem constitucional feita à medida dos interesses do capitalismo global e da política gestionária. O desenvolvimento da jurisprudência da UE minou consistentemente opções de política associadas com a esquerda, como a política industrial e as nacionalizações. Estruturas constitucionais que estão em grande medida fora do alcance dos cidadãos tenderam a bloquear o tipo de políticas radicais em que a esquerda tradicionalmente acreditou. (…) Mesmo que os partidos de esquerda europeus fossem bem sucedidos na elaboração de um programa comum, a UE não é o tipo de entidade política que possa ser alterada pela política popular. A UE foi construída para obstruir a política popular.”

Mas a surpresa vem do lado dos que à esquerda argumentam que o Reino Unido não deve sair. Dois dos casos mais respeitáveis e relevantes, dado o impacto das suas opiniões, são os de Monbiot e de Mason.

George Monbiot, académico e uma das figuras de referência do pensamento ambientalista no Reino Unido, denuncia o argumento soberanista porque, escreve ele, o seu país se tornou um paraíso de uma mafia financeira que agora pretende trocar a abdicação de soberania para a União Europeia pela abdicação para os Estados Unidos. O seu exemplo é o tratado da Parceria Transatlântica, que está a ser negociado entre a Comissão Europeia e Washington, e conclui que a opção de sair é caminhar para uma solução ainda pior, pois o seu país ficaria refém desse neoliberalismo radical. O problema com este argumento é que a Parceria está a ser negociada precisamente pela UE, o que torna difícil que Monbiot reivindique a pertença como condição para recusar o acordo com os Estados Unidos, sobretudo porque esse acordo tem os seus melhores aliados em Bruxelas.

Paul Mason, jornalista e editor do Channel Four, defende a saída, mas não agora, argumentando que a UE é um projecto fracassado e perigoso: não é uma democracia e diminui as democracias, proíbe a política industrial, prejudica a criação de emprego, degrada as relações sociais, promove um acordo vergonhoso com a Turquia… mas o Reino Unido deve ficar, por uma única razão, para não ceder a Boris Johnson. Ou seja, por cálculo da relação de forças política, o que certamente tem que ser sempre tomado em consideração. Mas será razão que determine o eleitorado?

Pergunto-lhe então, caro leitor ou leitora: acha que é mobilizador o argumento que diz aos britânicos que deviam sair, mas que devem ficar, porque os que propõem a saída são inapresentáveis?

Assim, a direita conduziu o Reino Unido a uma aventura que não sabe calcular e a esquerda derrota-se a si própria porque parece saber o que quereria se o mundo fosse melhor, mas não pode porque o mundo é pior.

Artigo publicado em blogues.publico.pt a 16 de junho de 2016

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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