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Em tempos de Selecção, memória selectiva

Os direitos não são dados, a democracia não é ofertada; a liberdade, igualdade e fraternidade não nos caem no colo nem saem nos vales de desconto em cartão; conquistam-se.

Só para informar a comunicação social portuguesa que ontem estiveram nas ruas de Paris mais de um milhão de pessoas a manifestarem-se pela protecção dos direitos laborais e contra a precarização dos mesmos, contida na propostade alteração das leis do trabalho da ministra El Khomri do governo Hollande/Valls.

Também, já agora, para lhes lembrar que, pelo esforço de trabalho dos franceses e francesas e como consequência da luta incansável pelos seus direitos (que os obriga, por vezes, a fazer greves) os habitantes da terra da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão conquistaram, até hoje, só por exemplo: um salário mínimo de 1,466€, um salário médio de 2,874€ (brutos), uma semana de trabalho entre as 35 e as 37,5 horas, além de uma invejável protecção social e serviços públicos ímpares em todo o mundo.

E antes que comecem a dizer mal das greves e que estes malandros deitam a economia abaixo, queria também só lembrar que a França é o 6º país mais rico do mundo e um farol de desenvolvimento técnico e humano (embora, nos tempos mais recentes – neo-liberalisme oblige – com uma luz mais apagadita…).

Os direitos não são dados, a democracia não é ofertada; a liberdade, igualdade e fraternidade não nos caem no colo nem saem nos vales de desconto em cartão; conquistam-se.

Ah, e acrescento:

Consta que houve quarta-feira à tarde um debate quinzenal na Assembleia da República com o primeiro-ministro. A retórica parlamentar foi interrompida, a meio, para dar lugar a uma bombástica, e com certeza vital, conferência sobre o próximo jogo da selecção portuguesa de futebol no Euro 2016… em França. Certamente que tal interrupção foi justificada. Afinal, a recapitalização da Caixa Geral de Depósitos e o dinheirito que lá há ou não há só dirá respeito aos portugueses e portuguesas que não passam bola à bola.

Sobre o/a autor(a)

Linguista. Dirigente distrital do Porto do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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