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O ex-administrador da Tecnoforma que lucra com a Escola Pública

O largo consenso que se constrói em defesa da Escola Pública é a desgraça de uma direita que defende apenas os seus.

Quando uma deputada do PSD é humilhada num programa da manhã da TVI por equiparar o rentismo dos colégios privados à "liberdade de escolha das famílias", eis que chegamos ao ponto do não retorno. O largo consenso que se constrói em defesa da Escola Pública é a desgraça de uma direita que defende apenas os seus. Seja agora o PSD a remeter a sua segunda linha dirigente ao embate (onde anda Luís Montenegro, que em maio fez plantão à porta dos colégios?) diz-nos tanto como a comoção de Assunção Cristas que assume a linha da frente. É que nisto das direitas, antes do porvir, há a estirpe: os Salesianos não são um estaminé educativo de beira da vila. E não há bálsamo de Marcelo ou quartelada de autarcas socialistas que apague o ultraje.

Contas feitas, ganham a democracia e a eficácia do gasto público. Mas o enfrentamento ao rentismo dos colégios não pode fazer esquecer os privados que ainda subsistem à custa da Escola Pública. Tal como noticiou o Expresso, são já 300 mil os estudantes que nos últimos anos foram submetidos a programas de ensino do empreendedorismo ministrados por entidades privadas. E quem pensa que falamos em atividades extra-curriculares, desengane-se. Projetos como a Junior Achievement: Aprender a Empreender - entidade dirigida por Carlos Salazar de Sousa (Grupo Mello), Nuno Gameiro (Manpower - ETT), Isabel Barros (Sonae) e Eduardo Moura (EDP) - já cativam o tempo letivo de pelo menos 1300 turmas em todo o país. E mais exemplos existem, onde autarquias e Estado pagam por uma formação privada na rede escolar pública.

Serem os principais responsáveis pela economia do atraso e dos baixos salários a encantarem os estudantes com o engodo do sucesso individual ilustra bem a situação, mas mais grave é saber que a imposição desta didática empreendedora faz-se, na maioria dos casos, sem a anuência dos estudantes e das famílias, o que já gerou queixas e problemas em algumas escolas. Trazer empresários para as salas de aulas e ensinar crianças de 6 e 7 anos a criar uma empresa, como de adultos se tratassem, instigando a competição e o individualismo, pode fazer sentido num mundo dominado pelos profetas do mercado livre, mas é uma doutrinação intolerável e um método perigoso.

Em meio a esta mobilização ideológica, encontramos laços de conveniência que são reveladores. É o caso da GesEntrepreneur, uma das principais entidades beneficiárias deste comércio público-privado. No comando desta empresa encontramos Francisco Banha, ex-colega de Passos Coelho na administração da Tecnoforma e atual gestor dos créditos mal-parados do BPN (Parvalorem). O facto de Banha ser sócio de Arlindo de Carvalho - o ministro da saúde durante os dois primeiros governos de Cavaco Silva que agora é julgado por uma dívida de 65 milhões de euros ao BPN - não impediu a nomeação para o cargo pela mão do anterior governo.

Apenas no ano letivo de 2014/2015, GesEntrepreneur alega ter estado presente em 86 municípios, envolvendo 776 turmas e 15 mil alunos. Nos últimos quatro anos, só em ajustes diretos realizados pelo Estado e pelas autarquias, a empresa de Banha amealhou perto de 1,5 milhões de euros. Ensinar as crianças a como subir na vida e criar a sua rede de negócios pode ser, de facto, um serviço recompensador.

Na manifestação de dia 18, sabemos do privilégio que combatemos. Todas as rendas privadas na Escola Pública têm que acabar.

Sobre o/a autor(a)

Sociólogo, dirigente do Bloco de Esquerda e ativista contra a precariedade.
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