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A greve e os media: o caso da cobertura do Público à greve dos Estivadores

Já é habitual vermos as greves serem mostradas pelos media de uma perspetiva, no mínimo, parcial.

Quem nunca viu reportagens televisivas sobre greves dos trabalhadores dos transportes serem reduzidas a entrevistar pessoas afetadas pelas demoras em paragens e estações? Não podemos dizer que haja um problema em entrevistar estas pessoas neste voxpop recorrente, o problema é quando a notícia se resume a ouvir o lado impactado pela greve. A cobertura noticiosa das greves por parte dos meios de comunicação social reflete não só o pendor neoliberal dos proprietários dos meios privados, como também as preferências políticas de quem está no Governo no espaço público. Não estou aqui a acusar nenhum Governo em particular, mas sim a fazer deliberadamente uma análise superficial baseada na minha perceção das notícias.

O problema principal é que ouvem-se os patrões e as pessoas afetadas, mas não se ouvem os trabalhadores que fazem a greve. Não havendo cobertura noticiosa da situação que levou à greve, não temos acesso a toda a informação necessária para construir uma opinião justa sobre esta. Quando não permitimos aos sindicalistas e outros trabalhadores envolvidos na greve, só ouvimos quem está contra ela. Para lá das habituais críticas conservadoras do tipo “Haviam de fazer greve ao domingo, para não chatear ninguém” ou “No tempo do Salazar é que era bom”, a omissão mais ou menos subtil do principal agente social responsável pela greve nas manchetes e conteúdos noticiosos mina a democracia, ao transmitir uma mensagem reprodutora do status quo hegemónico do lado mais forte da relação laboral, os patrões.

No caso que quero analisar hoje, como disse, de forma superficial, olhamos para uma notícia do “Público”, vista a 24/04/2016 pelas 13h55. Primeiro olhemos como as manchetes são posicionadas no site:

A primeira notícia, “Portos nacionais receiam perder competitividade”, em que se começa por dizer que os portos nacionais nunca estiveram tão bem, contrariando o negativismo da manchete, é curiosamente colocada junto a outra manchete negativa, sobre um hipotético aumento de preços de que falarei mais abaixo. Ambas estão com relativo destaque, em segundo lugar na coluna central do site, ao lado da principal manchete (com foto, no topo).

Nesta primeira notícia, em que como é hábito não se ouvem os trabalhadores dos Portos, destacamos este excerto:

E o conflito laboral que se arrasta há anos no Porto de Lisboa, que esta semana voltou a enfrentar as paralisações promovidas pelo Sindicato dos Estivadores, só tornam as coisas piores. Há carga que é desviada para Sines e para Leixões (Setúbal é a paragem mais óbvia, mas o pré-aviso de greve também abrange este porto e o da Figueira da Foz), mas há outra que pode sair para outros países.”

Em primeiro lugar, fala-se de conflito laboral em que o Porto enfrenta as paralisações do Sindicato, que “só tornam as coisas piores”. Não se informa o motivo deste conflito, nem se explica como é que este conflito prejudica, concretamente, a capacidade dos portos portugueses em atrair investimento estrangeiro. Afinal, logo em seguida diz-se que a carga é desviada para outros portos nacionais preparados para o efeito. Além disso, a última frase afirma categoricamente que há outra carga que “pode sair para outros países”.

A jornalista Luísa Pinto afirma que esta carga pode eventualmente, hipoteticamente, sair para outros países, sem nos informar como ela deduziu esta conclusão, sem nos informar que fonte lhe forneceu os dados que lhe permite concluir que os portos nacionais não serão capazes de receber a mercadoria não recebida pelo Porto de Lisboa. Ou seja, Luísa Pinto acha que isso pode acontecer porque sim. Talvez porque já tenha lido notícias sobre o tema que indicavam, também sem fonte, essa conclusão como possível. Mas o mais grave, na minha opinião, é a deliberada opção política, que Luísa Pinto toma, de não perguntar a opinião aos trabalhadores que organizam a greve.

Não se informando o motivo da greve, ficamos sem saber que os Estivadoresestão a lutar pela manutenção de um contrato coletivo que lhes garante um salário digno e condições de segurança no trabalho (numa profissão em que se morre no trabalho mais frequentemente do que se devia).

Noticiar greve dos estivadores, sem ouvir os estivadores

Continuando a análise, vejamos agora o título do artigo, “Greve dos estivadores poderá fazer aumentar preços em Lisboa“. A frase, baseada nas respostas às perguntas enviadas pela jornalista Luísa Pinto a Marina Ferreira, presidente da Administração do Porto de Lisboa (APL), envolve vários problemas.

Em primeiro lugar, é uma suposição retirada das palavras de uma das entidades que os trabalhadores estão a enfrentar com a greve. Isto seria plausível se fosse uma dedução lógica a partir da conversa com os vários agentes sociais envolvidos, o que não é o caso como veremos mais abaixo. É uma frase que corresponde à opinião de um dos agentes intervenientes no conflito laboral, o que torna o título obviamente parcial. Esta é uma prática comum, como já referi em outra publicação, no que toca à cobertura noticiosa das greves. A omissão dos motivos da greve, da opinião dos representantes dos trabalhadores, serve interesses obscuros da sociedade e que cada vez menos subtilmente afetam as redações dos jornais.

Em segundo lugar, a frase que dá o título ao artigo encerra em si uma espécie de ameaça sobre a cidade de Lisboa, assumindo as palavras da Presidente da APL como uma situação altamente provável, apesar das possibilidades de distribuição de mercadoria por outros portos nacionais. Este título, da forma que é construído em consonância com o conteúdo do artigo, poderá levar os leitores a uma sensação de medo – e portanto, de discordância – da greve. Afinal, quem é que fica tranquilo ao saber que algo pode levar ao seu já diminuto poder de compra vir a ser posto em perigo por algo que, à primeira vista, não lhes diz respeito?

Será tão perigoso para os interesses do patronato do setor portuário dar a conhecer os motivos da luta dos Estivadores que conseguem fazer sair notícias sem que se ouça os trabalhadores envolvidos? Ou não seria plausível os leitores conseguirem formar a sua opinião ouvindo todas as partes?

O artigo em si faz jus ao título, incluindo a opinião não só da APL, mas também da Agepor (representa os patrões da navegação e da Associação de Transitários de Portugal, também representantes do setor empresarial afetado pela greve). Todos apontam para os prejuízos trazidos pela greve dos Estivadores. A notícia sobre a greve dos Estivadores, com um título que incute o medo da greve, não inclui então nenhuma palavra dos próprios Estivadores.

Importa, portanto, entender o que os Estivadores dão como motivos da sua greve, instrumento de luta dos trabalhadores que é legal desde que se derrubou a ditadura em Portugal.

A estratégia patronal no Porto de Lisboa passa por um atentado ao Código de Trabalho e aos direitos dos estivadores, sendo o objetivo substituir contratos efetivos de trabalhadores experientes na estiva por contratos temporários, precários e na ordem dos 530€. A substituição de contratos efetivos por temporários para cumprir funções permanentes é, parece-nos, um motivo no mínimo justo para organizar uma greve. No entanto, se não lermos o próprio blogue do Sindicato, não temos como obter esta informação.

Será tão perigoso para os interesses do patronato do setor portuário dar a conhecer os motivos da luta dos Estivadores que conseguem fazer sair notícias sem que se ouça os trabalhadores envolvidos? Ou não seria plausível os leitores conseguirem formar a sua opinião ouvindo todas as partes? Provavelmente seria mais difícil defender a proposta de precarização, empobrecimento e degradação das condições de segurança no Porto de Lisboa se os leitores do Público tivessem acesso a toda a informação a que têm direito.

Esta prática, como já dissemos, é comum nos vários órgãos de comunicação social. Raras vezes temos direito a ouvir os motivos da greve por parte de quem as faz. Omitir informações cruciais para a perceção completa de um conflito laboral, incutindo o medo sobre aumento de preços em Lisboa, torna difícil defender o Público e outras publicações como agentes independentes dos media em Portugal.

Artigo publicado no blogue politicaagranel.wordpress.com

Sobre o/a autor(a)

Gestor de redes sociais, investigador em comunicação política.
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