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A China pode ser culpada, mas não é a única

Estão criadas as condições para a entrada numa nova crise global sem se ter saído da última, que é mascarada com uma recuperação que, na verdade, não existe.

“Don’t blame China for these Global Economic litters” é o título do artigo escrito por Ha-Joon Chang para o The Guardian que faz uma perspetiva sobre a conjuntura mundial a nível económico, sobre o seu passado e sobre os protagonistas das crises e recuperações (de 2008 até à atualidade), traçando uma análise das grandes economias mundiais (USA, EU e China). Olha, também, para o que pode ser o seu futuro, baseando-se em dados estatísticos institucionais, históricos e políticos. O artigo abre a discussão relativa à possibilidade de a Economia Global estar a entrar numa nova crise sem ter recuperado da última e de a China ser a possível culpada de tudo o que está a acontecer. Há factos a ter em conta, perguntas a responder, assuntos a aprofundar e conclusões a tirar.

De uma forma muito simplista e fácil de entender, tudo começou nos EUA. Em meados do ano 2001, com o objetivo de estimular a economia, a Reserva Federal norte-americana estipulou uma taxa de juro de mercado de 1%

De uma forma muito simplista e fácil de entender, tudo começou nos EUA. Em meados do ano 2001, com o objetivo de estimular a economia, a Reserva Federal (RF/Fed) norte-americana estipulou uma taxa de juro de mercado de 1%. Houve quem a tivesse aproveitado para conseguir dinheiro barato e aumentar lucros, estando constantemente alavancado. Visto que o crédito era fácil, desde esta altura até 2008, os bancos comerciais injetavam dinheiro na economia emprestando dinheiro a famílias que queriam comprar imóveis, mesmo que não tivessem garantias de que as mesmas pagariam os empréstimos, sem ser a casa que haviam comprado (faziam uma hipoteca da mesma ao não terem mais bens) – o negócio era arriscado. Os investidores tanto americanos como asiáticos e europeus, muitas vezes bancos de investimento (BI), que procuravam investimentos com grande retorno também aproveitaram a decisão da RF e conseguiram obter milhões de dólares quase a custo zero para que pudessem comprar, de certa forma, as hipotecas aos bancos comerciais por boas quantias e passavam a receber os juros pagos pelas famílias, mais elevados do que os correspondentes a 1% do empréstimo que fizeram à Fed. O crescimento fictício aumentava mas, a dada altura, o caminho inverteu-se. Com o nível geral de preços a subir, as famílias deixam de conseguir saldar os empréstimos, sendo que os BI ficam com as casas e, mesmo que as quisessem vender, seria impossível, dado o aumento constante do seu valor que faz com que a sua procura diminua. A oferta aumenta relativamente à procura e os preços diminuem drasticamente e o valor das casas acompanha-os, ficando os Bancos de Investimento com muitos ativos, pouco valiosos, sem possibilidade de revenda – estoura a bolha imobiliária e o seu resultado é falência dos grandes investidores. Estamos perante o grande crash e numa crise financeira, traduzida na redução do investimento interno e nos países exteriores, atrasando o crescimento económico, provocando a queda de grandes instituições financeiras, a diminuição das condições de vida das populações e o aumento do desemprego de forma abrupta – a crise torna-se global.

A maior potência económica mundial, liderada então por Barack Obama, adotaria medidas de política económica e fiscal de forma a incentivar a economia, prociclicamente, mostrando interesse em reduzir o desemprego que, durante a crise, alcançou os 10%. Ao contrário do que aconteceu na Europa, cujas medidas que levariam à estabilização de forma austeritária se basearam nos cortes em bens e serviços essenciais e no aumento da carga fiscal que pretendiam acelerar o progresso económico tornando mais difícil a vida concreta das pessoas, Obama e o Congresso afirmavam querer apostar no investimento direto em infraestruturas, educação e no setor energético. Havendo o risco de a economia não responder imediatamente, cortariam na tributação do trabalho que, mesmo que menos eficaz, mostra resultados mais rapidamente. Para além disso, apoiaria quem mais precisasse e estava numa posição mais vulnerável. Numericamente falando, com o investimento feito, o desemprego desceu para os 5% nos EUA nos tempos recentes – estariam criadas as condições para que a economia evoluísse, dado o aumento dos postos de trabalho criados, da produção, do consumo interno e das exportações, e saísse da crise em 2016 (ano apontado para o efeito).

Relatórios do Fundo Monetário Internacional concluem que nunca houve uma recuperação real da economia com as políticas de investimento aplicadas pelos EUA, ou com as políticas de austeridade dos países europeus

No entanto, 2016 não teve um início assim tão favorável para os Estados Unidos da América, fazendo com que personalidades como o atual Primeiro Secretário de Estado de Inglaterra, George Osborne, culpem a China pelo sucedido considerando que este país é um “cocktail perigoso de novas ameaças” (“dangerous cocktail of new threats”).

Com o objetivo de reposicionar as exportações e controlar a economia do seu país, o Banco Central Chinês, em colaboração com o Primeiro-Ministro, adotou medidas de política cambial – estamos perante a desvalorização da moeda nacional, o yuan. Mas esta desvalorização pode não ter tido o efeito pretendido, visto que registou um desaceleramento da economia, passando o seu valor de dois dígitos de crescimento anuais verificados desde há décadas para um crescimento anual atual de 6%, o que pode ter tido influência noutros aspetos que considero importantes e que alterariam a economia global: as importações e a as alterações dos mercados internacionais devidas à queda do yuan.

Analisemos o objetivo primário do governo chinês. Com a desvalorização da moeda interna, os países que importam produtos chineses conseguiriam comprar mais unidades de bens com a mesma quantidade de dinheiro, visto a sua moeda passar a valer mais – seria expectável que as exportações para o exterior aumentassem. Tal facto não aconteceu. As exportações chinesas caíram cerca de 25,6% face ao ano anterior. Mais do que implicações externas, este problema tem grandes implicações internas, dado que não consegue escoar o excedente de produção que todos os anos se verifica.

Vejamos, também, as importações: com o yuan a valer menos, os chineses conseguiriam importar menos matérias primas, grande parte utilizada pelo tecido produtivo, e o que se dá, na realidade, é mesmo uma queda nas importações em cerca de 13,8% – os outros países terão impacto negativo nas suas exportações para a China, principalmente quanto mais dependente das mesmas forem. No entanto, se falarmos nos grandes mundiais como os EUA (no qual dois terços da economia se baseia no consumo interno, as exportações pesam apenas 30% e desses apenas 7% são para a China) ou a União Europeia (economia com 15,4% das exportações mundiais e desse volume 13,4% para a China), o resultado desta redução de importações é muito fraco na economia global.

As principais economias do mundo não se preocupam com os efeitos colaterais que as suas políticas podem ter a nível internacional, não tendo em conta que vivemos na era da globalização, adotando medidas prejudiciais que afetam nações inteiras

A situação torna-se mais frágil, sim, quando se fala no papel que a redução do valor do yuan teve nos mercados bolsistas em todo o mundo, que terminaram sessões em queda abrupta, no final de 2015 – uma visão negra para a normalidade. Esta descida da moeda chinesa pressionou os países vizinhos a fazerem o mesmo com as suas divisas, para não perderem a competitividade que tinham com a China no que toca às exportações (ainda que as deste país tenham diminuído como já foi referido). Os investidores dos países asiáticos recuaram no investimento em dólares que tinham feito nos EUA, deixando os principais índices em baixas preocupantes, tal como aconteceu nos investimentos feitos em euros nos países da Zona Euro pertencentes à União Monetária com a Euronext a perder 1.57%. Para além disso, com medo de perder dinheiro, o Investimento Estrangeiro feito nos países asiáticos também decresceu.

Esta instabilidade nos mercados de capitais criada pela China provocou, um pouco por todo o mundo, receio de haver uma nova recessão. Mas, será esta uma situação assim tão linear e óbvia? Claro que não. Ora, voltemos à recuperação dos Estados Unidos da América, referida acima.

Relatórios do Fundo Monetário Internacional concluem que nunca houve uma recuperação real da economia com as políticas de investimento aplicadas pelos EUA, ou com as políticas de austeridade dos países europeus, porque, ainda que a maioria dos números seja favorável, ao considerar o rendimento ajustado pela inflação, parâmetro utilizado para medir o retorno que a economia tem pelo investimento depois de lhe retirar o peso da inflação (tendo em conta a national currency), conclui-se que se encontra abaixo dos valores verificados nos piores momentos da crise.

Não obstante, a Reserva Federal norte-americana parece ignorar este facto ao fazer propaganda no sentido de haver uma estabilização positiva e impressionante da economia (que é, na verdade, um mito). Então, para mostrar confiança, decide aumentar a taxa de juro pela primeira vez em nove anos para 0,5%, nos quais essa se manteve em valores muito perto de zero (0,25%) de forma a proporcionar a liquidez necessária aos mercados financeiros (desde que se contivessem quanto ao crédito mal parado). A responsável pela Fed, Janet Yellen, afirma que os “riscos estão equilibrados” e que mais vale a subida ser feita agora de forma gradual (atingindo os 2% no médio-prazo) do que a mesma ser feita mais tarde e de forma brusca.

Deve haver uma maior supervisão e regulamentação do sistema financeiro que é, sempre, o ponto de partida para tudo o que está a acontecer, de forma a contrariar o fraco crescimento económico, a instabilidade e o baixo nível de vida que vêm de todas as políticas

A subida da taxa de juro nos EUA, depois de tanto tempo estagnada, pode ter efeitos penalizadores nas grandes economias mundiais, nomeadamente da Zona Euro, conclui o relatório Financial Stability Review. Taxas de juro tão baixas durante 9 anos provocaram uma certa desordem nos preços dos ativos, dado que a falta de rendibilidade dos mesmos fez com que os investidores optassem por ativos com maior risco visto que estes acabavam sempre com juros mais baixos do que deviam e que esta alteração leva a problemas relacionados com a inflação que, por sua vez, origina ou ajustamentos agressivos nos prémios de risco ou uma nova bolha especulativa que, como sabemos, resulta sempre numa crise financeira. Para além disso, os países alavancados em moeda norte-americana estão vulneráveis a uma possível alteração na economia dos EUA. Janet Yellen afirma, por fim, que a evolução das taxas de juro depende do desempenho da economia, sendo que os países emergentes estão sujeitos a uma incerteza constante quanto ao que acontecerá nos mercados.

Estão, de facto, criadas as condições para a entrada numa nova crise global sem se ter saído da última, que é mascarada com uma recuperação que, na verdade, não existe. Não podemos culpar a China por estes problemas económicos todos porque não é a única culpada do estado a que estamos a chegar, apesar de ter contribuído muito para isso, especialmente em 2016, com a instabilidade criada em determinados mercados, com políticas de desvalorização que levaram a um menor investimento e ao aumento da incerteza quanto ao amanhã, nas periferias asiáticas e a nível do mercado internacional. Os Estados Unidos também têm um forte papel numa possível recessão, como aconteceu anteriormente, ignorando o facto de que as condições não são as melhores, indicando uma recuperação mítica para aumentar as taxas de juros que, provavelmente, irão alterar totalmente o mercado de capitais, os valores dos ativos, culminando nas bolhas financeiras cujo fim é certo e nada agradável.

As principais economias do mundo não se preocupam com os efeitos colaterais que as suas políticas podem ter a nível internacional, não tendo em conta que vivemos na era da globalização, adotando medidas prejudiciais que afetam nações inteiras. Deve haver uma maior supervisão e regulamentação do sistema financeiro que é, sempre, o ponto de partida para tudo o que está a acontecer, de forma a contrariar o fraco crescimento económico, a instabilidade e o baixo nível de vida que vêm de todas as políticas. Talvez exista uma renovação de valores que importa fazer em todos os setores da sociedade.

Sobre o/a autor(a)

Estudante de Gestão na Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa
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