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O novo Império Romano do século XXI

Vivemos uma época que é uma espécie de um novo Império Romano, embora no século XXI e à escala planetária. Este Império não tem apenas uma capital, tem várias - Berlim, Bruxelas, Washington, Moscovo, Pequim, Tóquio.

Há cerca de 2000 mil anos atrás uma grande parte do nosso planeta era dominado pelo Império Romano. Império que englobava vastos territórios da Europa, Ásia e África, países e regiões conhecidas como a Itália, França, Grécia e grande parte dos Balcãs, Ásia Menor, Síria, Egito, Palestina, Norte de África, Península Ibérica, Bretanha, parte da Europa Central e muitos outros territórios. A capital deste vasto Império situava-se em Roma e, mais tarde, em Constantinopla (hoje Istambul) com o Imperador Constantino.

O principal suporte social do Império Romano era a escravatura. Muitos milhões de escravas e de escravos produziam a riqueza necessária para alimentar as necessidades ociosas de outros grupos sociais minoritários, como o Imperador e a sua família, os patrícios, os senadores, os publicanos. Os próprios plebeus, considerados cidadãos romanos (tal como as classes mais ricas) – comerciantes, artesãos, trabalhadores livres, desempregados – e que constituíam grande parte da sociedade romana, eram igualmente os não privilegiados. Em suma, uma elite muito minoritária alimentava-se e vivia à custa de milhões de excluídos e escravizados. Ironia da História – foram estes excluídos e escravizados que, em grande parte, contribuíram para a derrocada e fim do Império Romano, dando início a uma nova etapa da História, a Idade Média.

A tal elite ultraminoritária, protegida por legiões de soldados, tudo possuía: riqueza, terras, vilas, dinheiro, palácios dourados, navios. Vivia no ócio, na luxúria, nos divertimentos, na abastança, dedicava-se à guerra, à intriga e ao crime. Enquanto os escravos, a plebe e os soldados morriam a trabalhar, com fome, na guerra e passavam por inaudíveis sofrimentos.

E agora 2000 mil anos depois? Sem dúvida que a vida melhorou, fruto das lutas dos povos, dos camponeses, dos artesãos e outros trabalhadores. A sociedade ocidental fez o seu percurso histórico ao longo das Idades Média, Moderna e Contemporânea. Muitas revoluções se sucederam e que contribuíram para a melhoria da vida dos povos – revolução industrial, revoluções liberais, revoluções populares e de índole socialista e muitas outras. No entanto, e olhando apenas para a Europa, muitos milhões de excluídos continuam a persistir, enquanto uma elite toda-poderosa e intocável tudo domina. Fora da Europa não é muito diferente.

Com efeito, vivemos uma época que é uma espécie de um novo Império Romano, embora no século XXI e à escala planetária. Este Império não tem apenas uma capital, tem várias – Berlim, Bruxelas, Washington, Moscovo, Pequim, Tóquio. Muitos milhões de pessoas, dezenas, centenas de milhões estão desempregados, são precários, são refugiados da guerra e da fome – são os excluídos deste século. Por sua vez, uns quantos, muito ricos, detêm grande parte da riqueza do planeta, vivem na corrupção, provocam as crises e as guerras, amealham fortunas nos Panamá Papers e outros offshores, possuem aviões e iates de luxo privados, compram ilhas paradisíacas. São os eurocratas de Bruxelas e de Merkel, os banqueiros, os príncipes do petróleo e dos diamantes de sangue, os Mexias, os Ricardo Salgados, os Eduardo e Isabel dos Santos, os Putins, etc. Esta a grande contradição, insanável, do nosso tempo. Todavia, a História prosseguirá o seu caminho, inexoravelmente.

Artigo publicado em acontradicao.wordpress.com

Sobre o/a autor(a)

Deputado do Bloco de Esquerda, eleito pelo círculo de Faro e Vereador na Câmara de Portimão. Professor. Mestre em História Contemporânea.
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