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A rua, lugar dos impossíveis

Uma análise da História dos últimos séculos demonstra-nos que os movimentos sociais tiveram um papel fundamental na transformação da sociedade.

Os seus exemplos são variados. A Revolução Industrial ficou marcada pela luta dos direitos laborais e redução do horário de trabalho diário. Nos tempos mais recentes, a luta pela igualdade e pela emancipação estiveram na ordem do dia. As sufragistas e os movimentos feministas; a eliminação da segregação nos Estados Unidos da América (EUA) com a insurgência de Rosa Parks e a comunidade que suportou a sua desobediência civil, ou mesmo dos quatro estudantes segregados racialmente em Greensboro e que se insurgiram, obtendo também o apoio da restante comunidade estudantil; o levantamento histórico em Stonewall, EUA, contra os raids e a ilegalização da comunidade LGBT; os movimentos pacifistas contra a guerra no Vietnam entre finais de 1960 e primeira metade de 1970.

Estes movimentos, aglutinadores e mobilizadores, em que as pessoas participam, em que se levantam contra as injustiças, a tirania e o poder, representam momentos de força, de pressão, que vão além dos media, que se passam em corrente e que têm em si mesmos a possibilidade da mudança. E Portugal não é diferente.

O novo momento político que atravessamos só é possível por causa das lutas dos últimos anos – das manifestações do Que se Lixe a Troika às grandoladas. O mesmo se passa com o combate à precariedade, que agora ganha mais força com o acordo, mas apenas porque houve movimento de precários que iniciou a luta e que não desistiu desta durante todo este tempo. Já para não falar da adoção por casais do mesmo sexo, pois esta manteve-se e pressionou para que a igualdade fosse inscrita na lei, que passasse a ser um facto. É a pressão da luta, e essa as pessoas é que a fazem.

É suficiente? Não, não é. Não foi nem tem sido, e por isso mesmo tem de se intensificar. E ainda para mais quando um outro momento surge e maiores embates se vislumbram. Quando percebemos que a Europa não é um espaço de esperança, de solidariedade e democracia, mas o local por excelência da prática antidemocrática, opressora e que nos retira a capacidade de decisão, de autonomia e determinação.

As ameaças constantes de uma troika 2.0, a chantagem do Tratado Orçamental e da dívida são as ferramentas utilizadas como entrave à mudança política que vai agora de encontro às pessoas. Foi assim na Grécia e tentarão que assim seja em Portugal. A austeridade, modelo neoliberal de destruição que aplica narrativas de culpabilização alicerçadas no senso comum, tem em vista a continuidade de um projeto, que embora esgotado, continua obstinado em mostrar que é único. E será esta a opção da maior parte dos governos europeus, mesmo quando não é da maior parte das pessoas que estes representam. E aqui volta a surgir a insurgência.

Não será do Governo, do Parlamento ou das instituições que poderemos almejar a mudança pacificamente, pois o nosso trabalho aí é limitado e com pouca capacidade de encorajar a emancipação. São espaços distantes, em que as hierarquias apenas servem para o distanciamento e subjugação. O Socialismo virá das ruas. É nestas, na confluência que permitem, no encontro que provocam e nas contradições que levantam, que se faz o avanço contracorrente que pode alterar relações de força e inverter caminhos.

Cabe-nos a nós fazer os caminhos inversos, caminhos que confluam em pessoas, que permitam construções comuns e que abram espaço para uma sociedade horizontal que traga a rua para onde ela nunca deveria ter deixado de estar, na decisão, na pressão, na influência, na exigência e na participação.

O mundo mudou e o Bloco, por várias vezes, percebeu-o e conseguiu ultrapassar as suas contradições. Voltemos a isso, redirecionemos e recuperemos o movimento enquanto ativistas que sempre fomos para continuarmos as lutas que sempre defendemos e com quem sempre o fizemos, nos espaços de participação e de igualdade que sempre privilegiámos. Sempre quisemos participar nestes espaços para construirmos sínteses em comum, e em horizontalidade, para pressionar para a construção da igualdade. A nossa formação foi na rua, o nosso espaço é na rua.

Juntarmo-nos para a construção em conjunto da sociedade que queremos tem de ser uma prioridade. A Revolução não espera e o bafio das instituições tem de ser ocupado pela esperança, pela diversidade. É na rua onde as coisas acontecem, onde os impossíveis se superam. Não fiquemos nós bafientos, mostremos que conseguimos agir de forma diferente. Sejamos gente!

Sobre o/a autor(a)

Designer gráfica e ativista contra a precariedade. Deputada e dirigente nacional do Bloco de Esquerda
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