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Sordidez

Talvez a notícia mais importante de todas esteja a ser sepultada pela avalancha de acontecimentos. Esse facto é a crise dos refugiados.

Crise no Brasil, condenações em Angola, inquérito do Banif, eleições norte-americanas, morte de Cruyff, não faltam notícias. Mas talvez a mais importante de todas, a mais definitiva, a mais grave, esteja a ser sepultada pela avalancha de acontecimentos. Esse facto é a crise dos refugiados, pela sua enorme e trágica dimensão humana e pelos riscos que representa para o Mediterrâneo e todas as suas sociedades – e para a Europa.

Para a Europa, “a resposta encontrada foi a pior possível, alimentando um espírito do salve-se quem puder verdadeiramente indecoroso”, escreve Teresa de Sousa aqui no PÚBLICO.

Deste acordo, o “pior possível”, ainda se disse pouco, tão habituados que estamos ao silêncio ou à conveniência. Que só abrange 72 mil refugiados, que são colocados em campos na Turquia, um Estado que não assinou a Convenção de Genebra de 1951 sobre o tratamento de vítimas de guerras, e que são famílias sacrificadas. Que haverá novos fluxos de refugiados de guerras que nunca acabam e que a solução militarizada é inviável. Mas Wolfgang Munchau, no Financial Times, foi um pouco mais preciso: o acordo é sórdido, como “nunca se viu na moderna política europeia”. Lembra também Munchau que, no dia em que foi assinado o acordo com a Turquia, o presidente Recep Tayyip Erdogan, veio declarar tonitruante: “Democracia, liberdade e força da lei, para nós essas palavras já não têm nenhum valor”.

No gráfico ao lado, percebemos que não é só Erdogan quem acha que estas palavras não têm valor: se as comunidades imigradas são condenadas à pobreza, então é fácil perceber os problemas sociais que daí resultarão (o gráfico dá-nos o risco de pobreza em cada sociedade, destacando o das comunidades de cidadãos de fora da UE28).

Se em tudo isto, na emergência e na vida quotidiana de tanta gente, as palavras deixaram de ter valor, esta sordidez é a vergonha no fundo da desumanidade.

Artigo publicado em blogues.publico.pt a 30 de março de 2015

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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