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Quando o céu ameaça cair…

Nunca o caminho da violência e do ódio foi solução. É isso que os dias que vivemos nos dizem. A solução não é fácil, não é única, mas só na democracia e no respeito pelos direitos humanos a poderemos encontrar.

A semana começou com as nuvens carregadas e o céu a ameaçar cair em cima de nós, apesar de já ser Primavera. No dia seguinte chegam as notícias do terror e do horror. Mais atentados, mais bombas, desta vez em Bruxelas. Os mortos somam. No momento em que escrevo já são 34.

Não há coisa mais abjeta do que fazer explodir uma bomba sabendo que se vai atingir inocentes, gente que está na sua vida, que vai trabalhar, que vai para a escola. Matar, promover o medo é o único objetivo. É o desprezo absoluto pela vida humana. Seja uma bomba no aeroporto ou no metropolitano, seja uma bomba lançada de um avião.

A guerra gera mais guerra, a violência gera mais violência, o medo só serve aqueles que o fomentam. É difícil, muito difícil, mas tem que se encontrar um caminho, que trave esta espiral de violência.

Na semana anterior, todos os dias sem exceção tivemos notícias sobre as operações policiais nos bairros de Bruxelas. Interrompidas para falar da situação no Brasil. Esse continente país que vive um dos momentos mais difíceis da sua História.

Continuamos a ver, ininterruptamente, as imagens dos milhares de refugiados e refugiadas que se acumulam à porta da Europa – desta Europa espaço de liberdade e de democracia, que decidiu fazer um Acordo com a Turquia, pagando-lhe para “devolver” as pessoas que fogem à guerra e nos batem à porta. Meses e meses sem uma solução à vista e não será esta solução – enviar as pessoas para campos na Turquia e apenas deixar entrar algumas a conta-gotas, que irá ter algum sucesso. Aliás, ninguém acredita nela, nem mesmo aqueles que assinaram o Acordo. Enquanto houver guerra e fome as pessoas vão fugir.

Acontecimentos desta dimensão não deixam ninguém indiferente, questionam-nos, individual e coletivamente. É possível e até natural que as posições se radicalizem, que vinguem posições securitárias, que se faça uso do medo para fazer crescer o ódio que se descarrega sempre nos alvos fáceis.

Mas não é este o caminho. Nunca o caminho da violência e do ódio foi solução. É isso que os dias que vivemos nos dizem. A solução não é fácil, não é única, mas só na democracia e no respeito pelos direitos humanos a poderemos encontrar. Doutra forma, já caímos na armadilha e não conseguiremos sair.

Nestes dias em que as notícias vindas do Brasil convocam sentimentos variados, cruzei-me com uma cantiga de Chico Buarque, muito antiga, que não conhecia, mas que traduz bem os sentimentos que nos assolam em dias como os que estamos a viver: “Tem dias que a gente se sente/Como quem partiu ou morreu/(…) A gente quer ter voz ativa/No nosso destino mandar/Mas eis que chega a roda-viva/E carrega o destino pra lá”.

É preciso resgatar e manter o destino nas nossas mãos.

Artigo publicado em mediotejo.net a 23 de março de 2016

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda. Vereadora da Câmara de Torres Novas. Animadora social.
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