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O horror é uma estratégia política

Os atentados de Bruxelas, como os que os antecederam em Paris, em Madrid, em Londres, em Istambul e noutros lugares, têm uma função política precisa, como muita gente assinalou.

Querem impor uma cultura de medo, que desagrega as sociedades porque estimula o ódio religioso, a discriminação social, a desconfiança como modo de ser. Querem banalizar o massacre como afirmação de uma retaliação ou como a regra do ataque militar. O horror é uma política suja, mas é uma política.

As consequências desta estratégia são imensas e todas desejadas pelos seus fautores. Cresce a extrema-direita e a política xenófoba invade o sistema partidário, acumulam-se medidas que relativizam as liberdades e normalizam o estado de excepção, fragilizando as democracias porque as marcam com a tutela do segredo, dos jogos de informações, das lógicas repressivas, da vigilância intrusiva. Os refugiados, vítimas desta guerra na sua terra, serão agora atingidos pela segunda vez pelo braço longo do horror, que transforma as vítimas em suspeitos aos olhos das autoridades europeias. A cor de pele ou a religião passam a ser uma culpa, como se a sociedade do século XXI mergulhasse no seu passado esquecido, no meio de uma cacofonia sobre crenças e histórias purificadas de identidades exclusivas.

Mas há ainda outras consequências. Aquela a que menos a opinião pública europeia parece estar atenta é à deslocação dos sistemas de alianças no Médio Oriente, dada a simpatia de meios governantes da Arábia Saudita e outros pelo “Estado Islâmico”, o Daesh, e o envolvimento (limitado) do Irão no combate contra essas milícias. Entretanto, o governo da Turquia, beneficiado pela cedência da União Europeia, prossegue o seu desígnio de atacar os exércitos curdos e de facilitar o caminho do Daesh. A impotência e a cumplicidade da União facilitam este caminho certo para o desastre.

Finalmente, esta estratégia de terror reforça o pior que a União Europeia tem, que é o seu fechamento. Os governantes sentem-se mais fortes em momento de pânico, sentem-se mais poderosos em regras de excepção, apreciam mais a coordenação se ela tem a pompa da emergência. Veremos muito disso nos próximos dias. Mas podemos estar certos de uma conclusão: quanto mais Hollande, e Merkel, e Rajoy, e Renzi jurarem pela força, menos farão para proteger as populações, para liquidar as bases dos terroristas, para integrar os refugiados, para abrir as soluções sociais que respeitem a democracia como respiração de todos quantos vivem e chegam à Europa.

Artigo publicado em blogues.publico.pt a 23 de março de 2016

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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