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Quando se fala de cultura afinal de que se fala?

A cultura não é mesmo uma gardénia para a lapela.

No Relatório do Orçamento de Estado 2016 entre as páginas 136 e 138, lê-se tudo quanto este Governo alinhavou para o exercício da cultura. Duas páginas! Só comparável à percentagem que a Cultura representa no PIB. Antes de chegar ao conteúdo (ou à sua ausência), um comentário sobre a forma e a bondade da argumentação. Salta-se de parágrafo em parágrafo sem sequência ou lógica. Veja-se a descontinuidade entre o terceiro e o quarto parágrafos sem que se detete qualquer relação apesar do uso da conjunção “contudo”. Porém, todavia. Depois tecem-se umas considerações vagas e supérfluas sobre a imprescindibilidade de um programa de cultura o qual, em um trabalho de mestrado, seria chumbado. No meio de tanta generalidade, encaixam-se umas referências às receitas da restauração e das entradas no Museu dos Coches. Não quero acreditar que o ministro João Soares não pudesse ter aprofundado o programa e a argumentação que o sustenta. Não esteve para isso, talvez, um aborrecimento. O problema é que a cultura não é mesmo uma gardénia para a lapela.

Entre o audiovisual e as artes cénicas com um saltinho ao património edificado, eis as balizas do programa de cultura. Ocorrem-me duas observações: uma do domínio comum e que é que a cultura não se esgota com o audiovisual, as artes cénicas e o património edificado. E esgotando, mesmo assim, estaria incompleta porque não se menciona nenhuma preocupação com o digital, nem se especifica quais as componentes das artes cénicas que estão em causa e porque património há vários séculos que alargou os seus horizontes muito para lá das fronteiras do edificado. O conceito está errado e desatualizado.

Mas eu sou bibliotecária, profissão que se abraça sem assomos de grande aventura (como ser bombeiro ou detetive) ou expectativas de consideráveis proventos materiais (como na banca ou no sector financeiro). Nunca se ouviu uma criança dizer “quando for grande quero ser bibliotecária”. É uma opção que se amadurece e pondera porque as bibliotecas, os arquivos, os livros ou os papéis não merecem parangonas e o trabalho, pelo contrário, acompanhado sempre de muito pó e solidão, desenrola-se as mais das vezes em silêncio. Mas esta solidão não pode varrer bibliotecas e arquivos da face da terra, equivaler ao seu total apagamento. Os governos têm de reconhecer a infraestrutura que bibliotecas e arquivos representam para a cultura, para a ciência e para o conhecimento. Nem uma palavra, sr. Ministro, nem uma alusão, indireta que fosse. É o vazio, o abismo. O reino do nada. Não acredito que o ministro João Soares tenha medido as consequências deste apagão.

Não vou argumentar sobre identidade, memória, salvaguarda do património, organização do saber. Mas que é a nossa memória coletiva que se atira borda fora, isso é; trata-se de uma pesada manifestação de incúria e desconhecimento e, admito, surpreendeu-me. Ainda que se reconfigurasse o texto do OE ’16 para incluir uma ou outra citação a bibliotecas e arquivos, a tarefa seria árdua porque exigiria a inclusão de tudo quanto lá não está, forçaria à limpeza de conceitos economicistas que não encaixam com atividades cuja finalidade não é dar lucro e obrigaria à consideração de objetivos agora inexistentes. Como é que se explica que à leitura pública é preciso juntar as bibliotecas académicas e eruditas, dotá-las a todas dos equipamentos indispensáveis que as tornem locais obrigatórios de consulta e estudo, apagando a ideia peregrina de que as bibliotecas são uma seca? Como é que se explica que a informação eletrónica não erradica o livro? Como é que se explica que é preciso garantir uma provisão regular e continuada de livros, sobretudo bibliografia estrangeira? Como é que se explica que é preciso adquirir espólios, manuscritos, livros raros? Como é que se explica que bibliotecas e arquivos precisam de uma política de preservação e conservação? Como é que … Cada pergunta expressa tem uma longa resposta. Vamos, claro, para o debate e rapidamente concluiremos que nem sempre é uma questão de dinheiro. As verbas ajudam, sim, mas sem ideias, planeamento, objetivos, ter dinheiro até pode ser contraproducente, provocar escolhas fortuitas, erradas. Parafraseando Eco (1981), “para converter as bibliotecas numa aventura” há muito mais em jogo. Vamos jogar?

“Um dos desígnios do Governo é fazer de Portugal um país de ciência, de cultura e de conhecimento. O investimento nestas áreas é um projeto coletivo para o futuro do país… ” qual início auspicioso mas enganador a página 139 do OE ’16! Merecemos todos mais, seja na cultura ou na ciência. O alheamento não se confina, infelizmente, a um setor o que nos garante que trabalho não faltará a caminho do OE ’17.

Sobre o/a autor(a)

Bibliotecária aposentada. Activista do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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