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Adeus Cavaco, Olá Marcelo

Hoje despedimo-nos de Cavaco Silva. Foram dez anos que marcaram muito o nosso país. Da minha parte, não escondo o quão negativo é o balanço que faço desses anos.

Já tive oportunidade de dizê-lo vezes sem conta, não vou repetir argumentos. Ficará na memória como um Presidente que tomou sempre partido pelos interesses financeiros, que usou o seu lugar para defender ou salvaguardar o poder dos seus, que ficou imune ao sofrimento dos portugueses e aos ataques que foram feitos à nossa soberania. Mas para mim, Cavaco não é apenas o ex-Presidente da República. É também o ex-Primeiro Ministro que usou o seu mandato para negociar uma integração europeia absolutamente frágil e desigual para Portugal, por exemplo, aceitando a destruição das nossas pescas, o Primeiro-Ministro que reprimiu, que atacou as gerações mais novas, que fez uma guerra ao ensino superior público. Fico-me por aqui. Poderia escrever um texto sem fim.

Hoje entra Marcelo em funções. Não sou hipócrita. Não teria sido candidata se entendesse que Marcelo era o melhor que poderíamos ter como Presidente. Foi essa a escolha dos portugueses e Marcelo é a partir de hoje o Presidente de todos os portugueses. Assim é em democracia.

Não estive na tomada de posse. Fui convidada, mas não pude estar. Esta é uma semana de plenário em Estrasburgo e o trabalho que tenho em mãos não me permite abandonar a sessão plenária durante dois dias, os dias que seriam necessários para poder ir assistir à tomada de posse. Escrevi-lhe ontem uma mensagem.

Marcelo é inesperado. Não esqueço a sua trajectória, não esqueço o que defendeu e quem defendeu ao longo dos últimos anos. Ressalto, no entanto, do discurso de tomada de posse este fragmento:

"O Presidente da República será, pois, um guardião permanente e escrupuloso da Constituição e dos seus valores (...)

O valor do respeito da dignidade da pessoa humana, antes do mais.

De pessoas de carne e osso. Que têm direito a serem livres, mas que têm igual direito a uma sociedade em que não haja, de modo dramaticamente persistente, dois milhões de pobres, mais de meio milhão em risco de pobreza, e, ainda, chocantes diferenças entre grupos, regiões e classes sociais."

Nunca tive feitio para ser profeta da desgraça. Se este desígnio for cumprido, será uma profunda transformação da política presidencial. Aguardamos a confirmação prática destes propósitos. Se esta vier a acontecer, não deixará de ter o meu apoio. Se não se vier a cumprir, não deixará de ter a minha crítica.

Artigo publicado na página de Marisa Matias no facebook

Sobre o/a autor(a)

Eurodeputada, dirigente do Bloco de Esquerda, socióloga.
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