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Porque não vão os pais mais vezes às escolas?

Os pais não desistem dos filhos, e é por isso que a escola não pode abdicar da sua presença.

Dia sim, dia não. É mais ou menos esta a frequência com que podemos ouvir críticas aos pais: “Os pais não vão às escolas e não querem saber da educação dos filhos!”. Dia sim, dia não voltamos também a ouvir que o afastamento se deve aos horários de trabalho absurdos que a maioria das famílias suporta. Deixar os filhos cedo demais e reencontrá-los tarde demais é a rotina da maioria das famílias em Portugal. O pouco tempo que sobra para a família é diminuído pela enormidade de trabalhos de casa. Trabalhos que passam a ser um muro entre as famílias e jovens. Programas e metas absurdamente grandes transformam a escola num colete de forças. Escola a tempo inteiro é estupidez programática.

Escola-Armazém

Enquanto a escola passou a acumular valências educativas com valências de armazém, os pais foram ensinados que o seu papel é fazer festas e gerir o financiamento das Atividades de Enriquecimento Curricular e da Componentes de Apoio à Família. Colocados fora dos Conselhos Pedagógicos, os pais deixaram de ter qualquer palavra no centro de estratégia das escolas. Professores e direções das escolas, aliviados por não terem que conviver e decidir questões pedagógicas com os pais, chamam os pais uma vez por trimestre à escola. Juntam-se os pais numa sala, fala-se durante trinta minutos ou uma hora, e voltamos a saber que o menino José é um traquina de tão falador e a menina Sarita sabe Português que até podia ensinar à diretora. E… já está, até ao próximo trimestre, fiquem bem.

A ameaça das famílias presentes

A escola precisa de perder o medo do que se passa à sua volta para que possa envolver as famílias na construção de soluções para as crianças. Não vale a pena repetir que a educação começa em casa e que depende das famílias e dos seus hábitos se ao mesmo tempo não se permite e até se desincentiva a participação dos pais na complexidade e estruturação da escola. Esse argumento, de que educação precisa das famílias, passa então a ser uma desculpa da escola para o seu próprio insucesso e desistência.

A escola sem democracia e abertura desiste mais facilmente

Os professores estão hoje entregues ao poder quase absoluto dos diretores nas escolas. Tudo ou quase tudo depende do diretor que controla e decide. Sobre a pressão das metas, dos currículos e dos rankings, os pais e as famílias podem ser um apoio importante para que a escola não desista das crianças depressa demais. Os pais, naturalmente, não vão facilmente desistir dos seus filhos.

Os exames nacionais eram a desistência. O chumbo era a desistência. Os percursos alternativos eram a desistência. Os pais não desistem dos filhos, e é por isso que a escola não pode abdicar da sua presença.

Sobre o/a autor(a)

Engenheiro informático
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