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O PS fora da caixa

Todos dizem, todos reconhecem: a aprovação do OE pelo voto do PS e da esquerda é um acontecimento histórico.

Não serei eu a reduzir o seu significado e alcance. Pelo contrário, o que receio é a sua banalização, destino habitual de tudo o que é tão evidente e consensual.

Sim, é histórica a opção do PS por um entendimento à esquerda. Porque rompe com a tradição do PS de governar com a direita ou como a direita, mas sempre de costas voltadas para a esquerda. Sim, o PS está fora da caixa e isso é um facto histórico.

Pode dizer-se que, perante o crescimento dos partidos à sua esquerda, não restava outra solução a António Costa. Todas as outras, mais ou menos condescendentes com a direita, comprometiam o seu futuro político e embaraçavam o PS. Tudo isso é verdade mas é sempre assim e é assim para todos. Não há opções à revelia da relação de forças e isso em nada diminui o seu valor. António Costa fez a sua, tal como os partidos de esquerda fizeram a deles. Podiam ter sido outras.

A invulgaridade da situação explica as dificuldades reveladas por todos os partidos em adaptarem-se a um xadrez em que o PS não está onde era suposto que estivesse. A direita perdeu o seu pronto socorro e a esquerda ganhou um parceiro inesperado. A direita está desorientada e paralisada. E, enquanto espera que alguma “tempestade” externa a faça regressar ao poder, transferiu a oposição para o grande circo dos profissionais do comentário político. A esquerda está desconfiada, hesitante e insegura, desdobra-se em propostas e iniciativas, não cala diferenças nem silencia o protesto, faz prova de vida todos os dias e a propósito de tudo.

A direita tenta disfarçar a sua profunda depressão mas as desoladoras campanhas que conduz em torno das respetivas lideranças não deixam esconder o seu estado anémico. Contra a tradição, desta vez, nem opositores há.

A campanha de Passos Coelho vive de duas falsificações: primeira, o slogan “Social-democracia sempre”, logo ele, o mais anti-social primeiro-ministro que o país conheceu; segunda, a insistência de Passos Coelho em fingir-se de primeiro-ministro que já não é. Passos tem um só propósito: blindar-se contra o “chega para lá” de Marcelo, por enquanto o rosto visível do que virá a ser a oposição a Passos, como antecipam as críticas de Marques Mendes nas suas homilias pagãs de domingo.

Assunção Cristas tenta disfarçar uma dupla irrelevância: a do CDS face ao PSD – e como ex-ministra protagoniza melhor que qualquer outro a captura de sectores tradicionalmente afetos ao PSD mas tutelados, nos últimos quatro anos, por ministros do CDS (empresários, industriais, agricultores, IPSS e Misericórdias) – e uma segunda irrelevância, a sua perante Paulo Portas, que a escolheu e impôs como candidata única, estatuto que a fragiliza e fomenta a indisfarçada frieza que lhe é dedicada pelas outras moções.

Separados, PSD e CDS procuram o que não existe, procuram o centro que juntos destruíram pelo extremismo do seu governo. O PSD orgulhoso das políticas da troika que promete retomar e o CDS, tão fiel à ideologia do pragmatismo – “governamos com qualquer um”, quanto infiel ao seu parceiro - “não fomos nós, foram eles”.

À esquerda, os dilemas são outros. Nenhum acordo, por melhor que seja, apaga o passado do PS, nem as divergências entre a esquerda. A dívida, a banca, a Europa, não são questões menores. Não faltarão problemas e tensões. Resta saber se há vontade para os ultrapassar ou se vão ser o pretexto necessário – e desejado por alguns, à esquerda e à direita - para romper em nome de valores que a esquerda tem por inalienáveis: identidade, autonomia, afirmação, luta social.

Não há acordos para toda a vida. Há mesmo quem sublinhe que este acordo é um intervalo. Será, sem dúvida. A questão é saber se é para abreviar, multiplicando conflitos, ou para prolongar, renovando e alargando o seu conteúdo.

Não vai faltar assunto nem animação aos congressos da esquerda e do PS. Há muitas interrogações: as linhas vermelhas traçadas por cada um, os limites programáticos da convergência, a articulação entre os partidos e destes com o governo e o parlamento, as eleições autárquicas entram ou não nestas conjeturas, enfim, muitas perguntas. Para as respostas, o tempo já está a contar.

Artigo publicado na revista “Visão” de 3 de março de 2016

Sobre o/a autor(a)

Médico. Aderente do Bloco de Esquerda.
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