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Os bravos do exame

Só a demagogia e o populismo da direita mais reacionária acredita que não merecemos mais do que uma escola em que só os bravos do exame têm lugar.

O Governo Regional, com o apoio incondicional do PS/Açores, é o último reduto de resistência de um governo que, com o Ministro de Educação Nuno Crato, usou e abusou do populismo e da demagogia, assente no senso comum, para transmitir uma imagem oca de sucesso educativo, cujo expoente máximo foi o exame à moda antiga para gáudio dos saudosistas da glorificação da antiga 4.ª classe que, durante demasiado tempo, escondeu um país que vedava o progressão dos estudos à maior parte da sua população.

A escola que obrigava à memorização de toda a rede de caminho-de-ferro e respetivos apeadeiros, mesmo que os alunos nunca tivessem visto um comboio à sua frente, é a escola que excluía e confundia a memória sem sentido com inteligência.

A escola dos exames ignora que o conhecimento depende do espírito de abertura, da partilha e da solidariedade, mas fomenta a competição e o individualismo, naquela que é a condição e a suposta virtude para atingir o sucesso nesta sociedade do «cada um por si».

Avaliar qualquer programa experimental (ou não) educativo, como é o caso do ‘Prosucesso’, com exames dá jeito a quem quer esconder uma escola que desconfia dos professores, ao enterrá-los em tarefas burocráticas, e ao precarizá-los, sempre que os converte em tarefeiros.

É a OCDE, a responsável pelas aferições internacionais do PISA, quem não tem dúvidas em apontar responsabilidades aos exames como fatores que agravam o risco de reprovação e exclusão social. Mas, paradoxalmente, são os mais acérrimos defensores dos exames os que mais recorrem aos resultados nacionais do PISA para defender a tal escola rigorosa que prepara os seus alunos, não para a vida como cidadãos, mas para os exames como se estivessem a prestar provas para o «molde final» de uma peça para encaixar numa qualquer máquina.

Quem teima em ver a escola como uma fábrica, nunca se sente responsável pela escola que vive da exclusão daqueles e daquelas que não cabem no tal «molde». Para estes defensores do rigor e da disciplina, quem tem sucesso é quem se safa nos exames, nem que para isso tenha de recorrer a explicações (fora da escola) para vingar nesta competição.

Se todos os defeitos desta escola dos exames são facilmente identificados pelo puro «bom senso», já não podemos concluir o mesmo quanto à associação entre ‘abandono’ e ‘insucesso’ escolar pelo «senso comum». O «senso comum» deste governo regional, com a má companhia ideológica da direita, pretende combater o abandono escolar com o insucesso escolar, naquela que é uma receita para o desastre.

Só a demagogia e o populismo da direita mais reacionária, debruçada neste “senso comum”, acredita que não merecemos mais do que uma escola em que só os bravos do exame têm lugar. É esta a escola defendida pelo Governo Regional ou é esta a escola defendida pelo ex-Ministro Nuno Crato?

Sobre o/a autor(a)

Deputado à Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores. Membro do Bloco de Esquerda Açores. Licenciado em Psicologia Social e das Organizações
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