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“Em Portugal há pessoas trans a morrer na indiferença geral”

A última entrevista que publicamos no dossier de homenagem à Gisberta foi feita a Sacha Touilh, de 30 anos, ativista trans francês. Por Joana Louçã.
O símbolo transgénero. Foto de Madeleine Burleson/Flickr

A minha conversa com Sacha foi a mais longa das três entrevistas e, quando achava que estávamos a terminar, perguntei-lhe se queria acrescentar mais alguma coisa. O discurso final foi um manifesto político. Comecemos por aí.

“Fui entrevistado porque estamos a comemorar a Gisberta e falei do meu ponto de vista, que é relativamente privilegiado. E acho que o ativismo muitas vezes tem esses privilégios que tem que reconhecer, para perceber de onde falamos e o que é que estamos a esquecer. Temos de ter cuidado com o ativismos burguês, às vezes é fácil lá cair. Eu sou branco, sou estrangeiro, sim, mas com o prestígio que implica ser francês, sou válido, em boa saúde, tenho um curso superior.

A Gisberta não estava nesta situação, estava numa situação muito mais vulnerável e foi assim que ela morreu. E ela não está sozinha. Hoje em dia, há muitas pessoas que estão na mesma situação e que continuam a morrer em silêncio. Fazermos ativismo e falarmos sobre nós, é errado. Falando de mim, fiz um discurso bastante otimista, disse que não sofro violência, então quem me ler terá a ideia que Portugal a vida não é má. Sim, é má. Há sempre pessoas a morrer na indiferença geral.

A Gisberta estava numa situação muito vulnerável e foi assim que ela morreu. E ela não está sozinha. Hoje em dia, há muitas pessoas que estão na mesma situação e que continuam a morrer em silêncio. Não podemos pensar que em Portugal a vida das pessoas trans não é má. Sim, é má. Há sempre pessoas a morrer na indiferença geral.

As pessoas trabalhadoras do sexo não têm nenhuma proteção. São totalmente vulneráveis à violência dos clientes e da polícia. E não têm ninguém que se interesse por elas, que lhes dê voz. Ser trabalhadora do sexo não dá direito aos cuidados de saúde que deveria, e isso causa muitos problemas. Sobretudo para pessoas trans, que fazem uma transição médica caseira, o que é muito perigoso para a saúde. Ouvi falar, por exemplo, de implantes mamários, que normalmente são feitos no hospital. Lá, fazem os cortes, colocam silicone médico, é bastante seguro. Elas não, elas colocam silicone que comprar no supermercado diretamente no corpo. Arde, e depois espalha-se pelo corpo inteiro, faz infeções. Não é por acaso que elas morrem cedo.

O preconceito, o facto de ninguém saber bem o que é ser trans, o facto de sermos desumanizados, para mim, quer dizer às vezes insultos, ou falta de compreensão. Eu fico ofendido, fico deprimido, mas depois volto para minha casa e tenho direitos. Para elas, significa o risco de serem espancadas, assassinadas. Quer dizer, não poder procurar ajuda porque as pessoas se riem, e não têm nenhuma noção da sua realidade e não as sabem ajudar. Acho que, se queremos homenagear a Gisberta, é muito importante falarmos disso. Podemos falar de mim, fico muito lisonjeado por me teres convidado, mas não sou eu que estou em risco de acabar afogado num poço. Porque eu não durmo na rua.

Quando falamos de minorias em geral e para um discurso mais inteligente, é preciso pensar nas pessoas mais vulneráveis, porque, matematicamente, melhorando a situação das pessoas mais vulneráveis, vais também melhorar a posição as pessoas mais privilegiadas. Senão, são só as pessoas mais privilegiadas que vão beneficiar dos avanços, mas não podemos pensar só nelas, porque não vamos atingir as pessoas vulneráveis.

O preconceito, o facto de ninguém saber bem o que é ser trans, o facto de sermos desumanizados, para mim, quer dizer às vezes insultos, ou falta de compreensão. Eu fico ofendido, fico deprimido, mas depois volto para minha casa e tenho direitos. Para elas, significa o risco de serem espancadas, assassinadas. Acho que, se queremos homenagear a Gisberta, é muito importante falarmos disso. Fico muito lisonjeado por me teres convidado, mas não sou eu que estou em risco de acabar afogado num poço. Porque eu não durmo na rua.

Para acabar com o preconceito, é essencial acabar com o estigma trans. Não só para eu não ficar ofendido, mas para salvar a vida das pessoas. E não só, é preciso acabar com o estigma das trabalhadoras do sexo, por exemplo. Porque é que, cada vez que não gostamos de uma mulher, a primeira coisa que lhe chamamos é de “puta”? Não só na boca dos machistas, mas também na boca de todas as pessoas, incluindo mulheres feministas, às vezes. Ou podemos dizer “traveca” e toda a gente se ri. Há um estigma enorme que fragiliza ainda mais as pessoas. 

Temos esse trabalho a fazer, dar direitos às pessoas trabalhadoras do sexo e melhorar as suas condições de vida. Garantir os direitos humanos a todos os seres humanos não deveria ser muito complicado, mas, aparentemente, é.

Como começaste a fazer ativismo e qual é a tua história de ativismo?

A minha história de ativismo é bastante recente, e não é por falta de interesse antes, mas, não sei, se calhar não estava maduro o suficiente, ou não me atrevia... Também é preciso perceber que o meu coming out a mim próprio e a minha transição social são bastante recentes, de 2013. Embora estivesse muito interessado e informado sobre política em geral, antigamente, nunca entrei no ativismo.

Mas depois de fazer parte de uma comunidade trans, é muito diferente. Sofri discriminação a um nível que nunca tinha experimentado antes. E tudo me parecia um escândalo, tão incrível, tão impossível, numa democracia ocidental. Os direitos humanos mais básicos não serem respeitados. Pareceu-me obrigatório entrar no ativismo, foi uma questão de sobrevivência.

Também porque é uma comunidade bastante pequena, quando comparado com a população em geral, por isso tive essa tendência, de pensar, “se não eu, quem?”. Não vou fazer isso sozinho, mas precisamos de todas as pessoas, de todos os braços possíveis, nessa luta. Foi assim que comecei. Faço parte das Panteras Rosa, estou perto da API, gosto das suas posições e às vezes colaboro com eles.

Sofri discriminação a um nível que nunca tinha experimentado antes. E tudo me parecia um escândalo, tão incrível, tão impossível, numa democracia ocidental. Os direitos humanos mais básicos não serem respeitados. Pareceu-me obrigatório entrar no ativismo, foi uma questão de sobrevivência.

Quais são as exigências da comunidade trans?

Uff! A dignidade básica, o direito de viver bem na sua própria identidade, sem discriminação, e isso abrange quase todos os aspetos da vida. Eu sei que o mais mediatizado, muitas vezes, é uma grande parte do ativismo trans, mas é muitas vezes a única coisa que é partilhada pelos média é a transição médica, o acesso à psiquiatria, às hormonas e à cirurgia. Isso é óbvio, toda a gente fala disso. Só que ser trans não é só isso, não é só o corpo e não é só a transição. Existíamos antes e vamos existir depois, e a nossa vida é muito mais do que isso.

Menos ignorância da população em geral, melhor acesso à saúde, melhor acesso ao trabalho, proteção e menos discriminação na escola e nos estudos em geral. Lutar cada vez que o nosso avanço é travado na sociedade, cada vez que as discriminações nos impedem de sermos o ser humano que podemos ser e fazem de nós uma minoria, uma população vulnerável.

O que representa o trabalho trans, feito por pessoas trans?

É essencial, indispensável. Com os 10 anos da Gisberta a chegar, fiz um pouco de pesquisa, falei com as pessoas que estavam lá há dez anos e podemos reconhecer o trabalho de algumas pessoas cis que alertaram, ajudaram a trazer isso a público, numa altura em que havia poucas pessoas trans ativistas organizadas. Havia, mas ninguém as ouvia. Não quero menosprezar o trabalho dessas pessoas, mas para uma pessoa cis é muito complicado entender a nossa realidade, o que vivemos, do que precisamos e, sobretudo, o nosso problema em geral é sermos invisíveis, desumanizados, considerados como objetos, ou freaks, qualquer coisa, e nunca termos uma voz própria. Portanto, mecanicamente, o trabalho ativista trans feito por pessoas trans é muito libertador, é muito empoderador, é muito mais justo. Claro que agora está muito mais desenvolvido e é esse que é preciso escutar em primeiro lugar.

Em relação há dez anos atrás até agora, o que foi mais marcante para a comunidade e para ti, em termos pessoais?

Temos de lutar cada vez que o nosso avanço é travado na sociedade, cada vez que as discriminações nos impedem de sermos o ser humano que podemos ser e fazem de nós uma minoria, uma população vulnerável.

Como disse, sou muito novo no ativismo e provavelmente ignoro muitas coisas. Mas posso falar sobre a lei da identidade de género, em Portugal, aprovada em 2011, que ainda não é despatologizante, mas, pelo menos, ajudou a dar alguns direitos, facilitou, em certa medida, a vida de algumas pessoas trans. Obviamente, está longe de ser perfeita, queremos melhorá-la, mas temos de reconhecer que foi um grande passo. Na altura, foi considerada uma lei bastante avançada.

A campanha Stop Trans Patologization, que ganhou muita visibilidade em 2012. Na altura, eu ainda não me identificava como trans, como “transexual”, porque era assim que falavam os média e eu não era isso, mas mesmo eu ouvi falar disso, dessas reivindicações, acho que houve um grande impacto na consciência da população em geral. Não o suficiente, ainda, mas já foi um primeiro passo.

No verão passado, o primeiro bloco trans na marcha de Lisboa, foi fixe, um grande momento empoderador.

Sobre saúde, trabalho e violência, o que achas que mudou, ou não mudou, nos últimos dez anos?

Tenho uma perspetiva de dois, três anos em Portugal, não tenho uma perspetiva de dez anos, mas poderíamos falar sobre violência na saúde e violência no trabalho!

Sobre saúde... não sei como era antes, mas sei como é hoje. Sei que muitas vezes não se respeita bem a lei, eu sei que satisfaz umas pessoas trans, mas exclui muitas outras. Acho que algumas pessoas trans estão satisfeitas com a lei, acham que ok, demora um pouco, mas acham que é uma forma de provar ao mundo que são mesmo, mesmo, mesmo isso. E saem de lá com um diploma de trans e seguem esse caminho e quando chegam ao final têm a sensação de afinal ser o verdadeiro homem, ou a verdadeira mulher que sempre foram. Há umas pessoas que não se queixam, e ainda bem para essas pessoas. O problema são todas as pessoas excluídas. Nomeadamente, as pessoas não binárias, foram do binarismo de género, as pessoas não portuguesas.

Para uma pessoa cis é muito complicado entender a nossa realidade, o que vivemos, do que precisamos e, sobretudo, o nosso problema em geral é sermos invisíveis, desumanizados, considerados como objetos, ou freaks, qualquer coisa, e nunca termos voz própria.

Eu tive muita dificuldade em registar-me no sistema de saúde português, porque não me queria registar com o meu antigo nome. Em França, para fazer a mudança de nome, é preciso fazer a transição médica e no final ir a um tribunal e é um juiz que decide se aceita ou não. A lei diz que tem que ter provas de uma transição definitiva. Não fala especificamente de operação genital ou de esterilização, mas muitos juízes interpretam assim. E, para mim, estava fora de questão submeter-me a isso, então adicionei um pseudónimo, uma alcunha. E assim consegui registar-me, apagando o nome do meio, mas foi muito complicado registar-me aqui nas finanças e no sistema de saúde. Registaram-me sempre enquanto mulher, mas, de qualquer forma, sendo eu não binário, o “M” seria sempre uma mentira tão grande quanto o “F”. Demorei um ano a conseguir tudo isso. Imagino que não seja o único nessa situação. As pessoas que não se querem submeter ao stress enorme, a humilhação, a transfobia, de apresentar-se com o nome errado, o género errado, estão fora do sistema.

Dez anos depois, continua a ser urgente acabar com os abusos policiais possíveis. As pessoas trans trabalhadoras do sexo são totalmente objetificadas, desumanizadas, então podem ser humilhadas, abusadas.

Continua a ser urgente reconhecer os direitos das pessoas que não só são estrangeiras, como estão em situação ilegal, pessoas que nem podem sair à rua para ir às compras, ainda menos ir ao médico. A quem se vão queixar se forem violadas? É preciso criar redes de solidariedade a todos os níveis.

Depois, a vulnerabilidade em todas as áreas das nossas vidas continua e tem consequências. A mais violenta e chocante é, como aconteceu à Gisberta, o assassinato, mas é incrível como as pessoas trans morrem jovens, na indiferença geral. E temos uma taxa de suicídio enorme, acho que a partir dos 25 anos 50% das pessoas trans se tentam suicidar. E muitas conseguem. Percebo que, para a sociedade, isso não é um problema, porque somos freaks e não faz mal, mas nós queremos viver.

Temos uma taxa de suicídio enorme, a partir dos 25 anos 50% das pessoas trans se tentam suicidar. E muitas conseguem. Percebo que, para a sociedade, isso não seja um problema, porque somos freaks e não faz mal, mas nós queremos viver.

Algumas pessoas morrem porque internalizaram a vergonham de quem são. Basta dizeres “trans” ou “traveca” e as pessoas riem-se, não requer esforço de humor, é uma piada em si e às vezes as pessoas internalizam isso e pensam que não podem ser felizes. Mas às vezes as pessoas estão felizes por quem são, mas a sociedade não as deixa viver. É muito pesado, é muita pressão e umas pessoas não aguentam e deixam-nos assim, demasiado cedo. É um escândalo e tem que mudar.

Por outro lado, há a doenças, não somos tratados porque não estamos incluídos no sistema de saúde, ou não queremos ir para não sofrer maus tratos. Ou temos doenças específicas trans e os médicos são incompetentes e não sabem tratar de nós e deixam-nos morrer. Ouvi imensos relatos de pessoas trans que ligam para os médicos a marcar consultas e eles respondem que não tratam esses casos. Não dizem que são transfóbicos, dizem que não sabem. É tempo de se informarem, precisamos de cuidados de saúde!

Há um trabalho para fazer a todos os níveis da sociedade, é preciso formar todos os trabalhadores do sector público, nas finanças, saúde, nas escolas, sobre como tratar e proteger o público trans. Não só não discriminar, mas reconhecer os abusos e proteger. Precisamos mesmo disso, de competência.

Desde crianças, os jovens nas escolas, proteção contra o bullying, muitas vezes as pessoas estão perdidas, não sabem o que se está a passar com elas, e é preciso profissionais da infância que saibam como dar informação, reconhecer isso, em vez de discriminar, punir e deixar sair do sistema.

Precisamos de discriminação positiva. Na Argentina criaram uma lei de cotas, x empregados deveriam ser trans, acho brilhante. O atual governo de direita está a reverter passos que foram feitos, nada é ganho para sempre, é preciso continuar a lutar, não só nas questões trans!

Eu tenho um diploma do ensino superior porque eu fiz coming out no fim dos meus estudos, para as pessoas que já sabem jovens, é demasiada pressão, não podem viver como se sentem, são excluídos e alvo de bullying, então saem do sistema escolar sem um diploma. Isso não ajuda no acesso ao trabalho depois. Adicionar isso ao preconceito, à discriminação dos trabalhadores, é impossível.

Para o acesso ao trabalho, precisamos de discriminação positiva. Na Argentina acho que criaram essa lei, com cotas, x empregados deveriam ser trans, acho brilhante. O atual governo de direita está a reverter passos que foram feitos, nada é ganho para sempre, é preciso continuar a lutar, não só nas questões trans!

Uma última coisa, há um cliché quando falamos de pessoas trans, que é dizer “coitadinha, ela nasceu com o corpo errado”. Pode ser uma vantagem, algumas pessoas preconceituosas ficam comovidas com essa noção e querem ajudar. Mas o problema é que não acredito nisso. Acho que nascemos com o nosso corpo e o que é errado é o olhar que as pessoas têm sobre o nosso corpo, a interpretação que fazem do nosso corpo, que por ter um pénis é um homem, não é!

As pessoas crescem odiando o seu corpo, pensando que há algo errado com ele. Muitas vezes, não há nada de errado com o seu corpo, pode ser muito funcional, pode dar muito prazer, pode ser muito bonito, mas as pessoas não aprendem a vê-lo bonito, porque a sociedade diz sempre que vêm uma coisa que não são. As pessoas olham para mim, muitas vezes vêm uma mulher, eu poderia odiar o meu corpo por causa disso, mas em vez disso, fico muito decepcionado pelo olhar das pessoas e da sociedade (risos). Porque eu, pessoalmente, não tenho nenhum problema com o meu corpo, acho-o bastante bonito, dá-me bastante prazer. E acho triste essa pressão que sinto para modificar o meu corpo para aliviar um pouco da discriminação que eu sofro.

Há um cliché quando falamos de pessoas trans, que é dizer “coitadinha, ela nasceu com o corpo errado”. O problema é que não acredito nisso. Acho que nascemos com o nosso corpo e o que é errado é o olhar que as pessoas têm sobre o nosso corpo, a interpretação que fazem do nosso corpo, que por ter um pénis é um homem, não é!

Se cada vez que eu fico deprimido por as pessoas me tratarem no feminino, quando me atrevo a queixar, respondem-me que pareço uma mulher e que, se quiser ser tratado no masculino, tenho de fazer esse esforço por mudar a minha aparência para parecer um homem. Mas como é que se parece um homem? Qual é a aparência de um homem? Há homens trans, que são homens trans, mesmo com essa aparência que parece feminina, e já são homens, por acaso eu não sou. E acho muito triste que eu tenha de me parecer o mais possível com um homem cis para que as pessoas me tratem no masculino porque eu quero ser tratado no masculino. E isso também seria errado, iriam pensar que eu sou um homem e não sou!

Acho mais interessante educar, criar consciência dessas questões de género que são, em geral, na sociedade, muito mais complexas, do que nos tentarmos adaptar a algo que, claramente, não é feito para nós. Estamos a perder a nossa saúde mental e estamos a morrer assim, tentando, é absurdo.

Queres falar sobre o que é o não binarismo de género?

É o meu tema preferido (risos). Vamos começar pela base. Há essa concepção errada que o sexo e o género são a mesma coisa e que é muito simples, se tens uma pila, és um homem, se tens uma vagina, és uma mulher. Há dois sexos, há dois géneros, são sinónimos. É esse o mundo em que vivemos, é assim que ensinamos às crianças e os adultos acreditam que é a única verdade possível. Mas é mentira.

As pessoas olham para mim, muitas vezes vêm uma mulher, eu poderia odiar o meu corpo por causa disso, mas em vez disso, fico muito decepcionado pelo olhar das pessoas e da sociedade. Porque eu, pessoalmente, não tenho nenhum problema com o meu corpo.

 

Depois, há algumas pessoas que estão mais evoluídas, feministas, ou pessoas que estudaram um pouco e que sabem que sexo e género são diferentes, acham que o género é uma construção social e que o sexo é uma realidade biológica. Isso também é errado, o sexo também é uma construção social, no sentido em que foram cientistas que decidiram que podemos dividir a espécie humana em dois sexos, fêmeas e machos. Funciona bem em termos de reprodução. Só que, se olharmos bem, há muitas variações. Sempre houve e sempre vai haver. Nos humanos e noutros animais. Há as pessoas intersexo. Não sou especialista em questões intersexo, por isso não sei bem se chamamos intersexo às pessoas que nascem com uma “ambiguidade” tal que não é possível dizer se são machos ou fêmeas. Mas também há pessoas que dizemos que são mulheres, mas têm um nível de testosterona tão alto que poderiam ter barba, por exemplo. Há todas estas variações.

Bom, ao nível do sexo é muito mais complicado do que o binarismo fêmea-macho, ao nível do género, a mesma coisa. Há muita gente que sai do binarismo homem-mulher, que se sentem um pouco dos dois, que não se sentem nenhum dos dois, que se sentem no meio, ou que se sentem fluídos, que mudam de identidade de género ao longo do tempo, por fases. Não estou a falar de um terceiro género, estou a falar de milhares de géneros. É muito interessante, quando se faz um estudo a sério sobre pessoas não binárias, há uma diversidade imensa de géneros. As pessoas têm muita imaginação para nomear o género que têm.

Como não há nenhum conhecimento sobre isso, muitas vezes as pessoas acham que estão sozinhas, e ficam no armário a vida inteira. Foi o  meu caso durante muito tempo. Já tinha ouvido falar “das transexuais”, porque muitas vezes só falamos das pessoas MtF, com todos os preconceitos muito violentos, muitos transfóbico associados. Que são todas prostitutas, que são homens com mamas, como disseram da Gisberta.

Como é que se parece um homem? Qual é a aparência de um homem? Há homens que são homens trans, que, mesmo com essa aparência que parece feminina, são homens. Por acaso eu não sou. Acho muito triste que eu tenha de me parecer o mais possível com um homem cis para que as pessoas me tratem no masculino porque eu quero ser tratado no masculino. 

Depois também soube que havia os FtM, pessoas designadas como mulheres à nascença, mas que são homens. Mas eu também não me sentia bem homem. Sentia-me mais masculino do que o previsto, mas não exatamente homem. Pensava que devia ser na minha cabeça, até ao dia em que descobri que não estava sozinho, e a minha vida mudou.

Há muito trabalho a fazer no reconhecimento das identidades não binárias, mesmo no ativismo trans, hoje em dia não falamos muito disso. Há outras prioridades, há o receio, ou o preconceito de algumas pessoas trans, que não querem que nós façamos parte da comunidade, há muito trabalho de educação para fazer.

Por último, é incrível que em Portugal haja uma lista com os nomes que as pessoas possam ter. Para os bebés que nascem, a lei diz que o primeiro nome tem de ser um nome que não deixa qualquer ambiguidade sobre o género da pessoa. O que é estúpido, o bebé ainda nem fala e não sabemos o género do bebé! E o problema para muitas pessoas não binárias é que queremos um nome neutro, que dê para qualquer género. O caso do meu nome, eu sei que em português é tido como feminino, mas em francês dá para qualquer género, foi por isso que o escolhi. Para termos a possibilidade de nos exprimirmos, era bom acabar com essa antiga regra, nacionalista e conservadora. 

Porque decidiste vir de França para cá?

É sempre difícil fazer uma viagem assim, foi por várias razões, por exemplo, sou tradutor de português para francês e queria melhorar o meu vocabulário, o meu conhecimento da cultura, para fazer um melhor trabalho, queria mudar de cidade e ir para o sol.

Há essa concepção errada que o sexo e o género são a mesma coisa e que é muito simples: se tens uma pila, és um homem, se tens uma vagina, és uma mulher. Há dois sexos, há dois géneros, são sinónimos. É esse o mundo em que vivemos, é assim que ensinamos às crianças e os adultos acreditam que é a única verdade possível. Mas é mentira.

Também foi porque tinha feito o meu coming out em França e não posso dizer que tenha corrido mal, não houve rejeição clara, não houve violência física, ou qualquer coisa, mas também não correu muito facilmente, houve bastante resistência. E ouvi várias vezes “mas eu conheci-te antes, para mim sempre serás uma mulher” ou “mas para mim sempre serás... (o nome de nascença)”. E eu pensei, ok, então vou mudar-me para um sítio onde ninguém me conheça e ninguém me possa dizer isso. E nesse momento todas as pessoas me diziam “é muito difícil para mim”, pois, mas também era difícil para mim! E estava farto de entender as pessoas sem que ninguém fizesse esse esforço para mim. Foi uma deslocação para exigir respeito. Vim para um país que sabia que, claramente, não era o El Dorado trans, mas também era outro contexto e pensei que poderia ser um novo início e correr bem.

Mas há algum país que seja o El Dorado trans?

Não, não.

E a comunidade trans em França é muito diferente daqui, nas suas formas de organização?

Ao nível do sexo e do género é muito mais complicado do que o binarismo fêmea-macho. Muita gente que sai do binarismo homem-mulher, sentem-se um pouco dos dois, não se sentem nenhum dos dois, sentem-se no meio, ou sentem-se fluídos, mudam de identidade de género ao longo do tempo, por fases. Não estou a falar de um terceiro género, estou a falar de milhares de géneros.

O que me parece mais óbvio é que a França é um país muito maior, com muito mais pessoas e muitas mais organizações. Também é um país com uma cultura política de ativismo bastante forte, e talvez o ativismo trans seja mais antigo. Talvez. Mas não quer dizer que haja grandes sucessos, porque o status quo é muito poderoso, em França. Porque há muitas organizações de valor, de qualidade, que fazem imenso trabalho, mas que não conseguem grandes vitórias. Podemos dizer que é bastante admirável o que as organizações em Portugal conseguiram fazer considerando o número bastante reduzido e em relativamente pouco tempo. O caminho ainda será longo, mas já podemos ver avanços.

E as exigências são diferentes em França e em Portugal?

Parece-me que a crítica do cissexismo é muito maior em França que em Portugal. Todas as organizações agora são despatologizantes , denunciam a transfobia dos média, insistem nas formas certas de nos tratar, denunciam os média que insistem na transição, sempre a transição, e no miserabilismo, o sensacionalismo, sobre como somos tristes, como é um grande sofrimento ser trans. Muitas organizações trans lutam contra isso, o que não me parece muito generalizado em Portugal. Há organizações que fazem isso, mas muitas ainda são amigas dos média e acham perfeitamente normal serem exotizados em troca de um pouco de visibilidade. Fazer um pouco de exibicionismo para agradar ao público sem por isso em causa. Não é o caso de todo o ativismo português, mas ainda existe e parece-me muito mais raro em França.

Que dificuldades sentiste quando te mudaste para cá, especificamente por seres trans?

Já falei das minhas dificuldades em registar-me no centro de saúde, por exemplo, mas não tenho a certeza que em França tivesse sido muito mais simples. Comecei a minha transição social em França um ano antes de me mudar para cá, por isso não consigo bem comparar.

É bastante admirável o que as organizações em Portugal conseguiram fazer considerando o número bastante reduzido e em relativamente pouco tempo. O caminho ainda será longo, mas já podemos ver avanços.

Acho que as pessoas me respeitam mais aqui, mas às vezes tenho a sensação que é porque os portugueses são muito bem educados e que me respeitam enquanto... ia dizer estrangeiro, mas não, enquanto francês, porque, claramente, há diferentes classes de estrangeiros. Há um prestígio em ser francês que não há em ser brasileiro, ou angolano. Portanto, as pessoas tratam-me bastante bem.

Acho que, muitas vezes, não percebem o que quer dizer ser trans, muito menos o que quer dizer ser não binário, mas quando digo que têm de me tratar no masculino, fazem. E ninguém me agride, me maltrata nem verbalmente nem fisicamente, às vezes ouço perguntas estúpidas, mas muito menos do que em França. Então para mim foi mais fácil estar aqui. Não quero dar a ideia de que Portugal é um paraíso, porque também tenho muitos amigos que não têm a mesma experiência do que eu. Acho que é por serem portugueses, há outras expectativas sobre eles da partes dos outros portugueses cis, que faz com que seja mais violento para eles, mas, para mim, é bastante tranquilo.

Sobre o/a autor(a)

Doutorada em sociologia da infância
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