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Portugal sob ameaça nuclear

Antes de cada desgraça evitável, os negligentes criticam sempre o "alarmismo" de quem previne. É melhor soar o alarme: junto à fronteira portuguesa, sobre o Tejo, cresce o risco de catástrofe.

Desta vez, os "alarmistas" da história são cinco inspetores do Conselho de Segurança Nuclear (CSN) do Estado Espanhol que, no final de janeiro, recusaram ficar do lado da negligência. Depois da última vistoria à central nuclear de Almaraz, motivada por repetidas avarias nos motores das bombas de água da central, ficou claro que o sistema de refrigeração não dá garantias suficientes e que, dizem os técnicos, coloca sério risco de segurança.

Almaraz tem os reatores nucleares mais envelhecidos do Estado espanhol. Já em maio de 2015, era noticiado o desleixo na vigilância contra incêndios na central. Pouco depois, no verão, a Greenpeace divulgava um estudo europeu sobre a aplicação dos mínimos de segurança estabelecidos depois do acidente de Fukushima, em 2011. Almaraz era apresentada como um caso extremo. A central não cumpre pontos essenciais: não tem válvulas de segurança e sistemas de ventilação filtrada para prevenir uma explosão de hidrogénio como a de Fukushima; não tem dispositivo eficaz para contenção da radioatividade em caso de acidente grave; não tem avaliação de riscos naturais; não está sequer prevista a implantação de um escape alternativo para calor.

Já antes de o El Pais divulgar, no início de fevereiro, o relatório dos cinco inspetores do CSN, a Greenpeace era taxativa: "Almaraz não é segura e não se deveria permitir a manutenção da sua atividade". Por cá, dias antes da denúncia, Luísa Schmidt levantava no Expresso a questão da "caquética central nuclear que está há anos para ser desativada e que é um perigo para as populações da Península e para o Tejo". Depois do relato dos inspetores, já se registou em fevereiro nova avaria e um incêndio. Pois é: diante dos riscos presentes, assumir o alarme sobre Almaraz é uma obrigação.

Há anos que os governos de Madrid respondem com "garantias de segurança" às autoridades regionais da Extremadura e ao governo de Portugal - e assim foi de novo agora, como admitiu António Costa, interpelado por Catarina Martins no parlamento. Mas a cada ano, a cada incidente, essas garantias valem menos.

Todos sabem que um acidente grave teria implicações profundas na vida e na saúde de gerações, com contaminação em larga escala, pelo ar e pelo Tejo, êxodo de povoações. Uma catástrofe que, não sendo inédita, deveria suscitar outra atenção pública. A começar por quem vê na vantagem dos custos o principal argumento pró-nuclear.

Portugal não pode limitar-se a esperar por melhores "garantias", dadas, talvez, de novo, por um governo do PS espanhol. O encerramento de Almaraz não é só a exigência das populações ameaçadas. É o único objetivo responsável para um governo português.

Sobre o/a autor(a)

Deputado e dirigente do Bloco de Esquerda. Jornalista.
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