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LGBTI: O que é Intersexo?

A natureza não decide onde a categoria "masculina" termina e a categoria "intersexo" começa ou onde a categoria "intersexo" termina e a categoria "feminina" começa. Os seres humanos é que decidem. Por Sociedade Intersexual Norte Americana.

“Intersexo” é o termo comummente usado para designar uma variedade de condições em que uma pessoa nasce com uma anatomia reprodutiva ou sexual que não se encaixa na definição típica de sexo feminino ou masculino. Por exemplo, uma pessoa pode nascer com uma aparência exterior feminina mas com anatomia interior maioritariamente masculina. Ou nascer com genitais que se situam algures entre o feminino e o masculino – por exemplo, uma rapariga pode nascer com um clitóris visivelmente grande ou com ausência de abertura vaginal e um rapaz pode nascer com um pénis anormalmente pequeno ou com um escroto dividido e com formato mais semelhante a lábios vaginais. Ou ainda, uma pessoa pode nascer com uma variedade genética em que algumas das suas células têm cromossomas XX e outras cromossomas XY.

 Apesar de falarmos de intersexo como uma condição inata, a anatomia intersexo nem sempre se revela no nascimento. Por vezes a intersexualidade só se manifesta na puberdade, quando a pessoa se depara com a infertilidade ou quando morre e é autopsiada. Algumas pessoas vivem e morrem com anatomia intersexo sem que ninguém (incluindo elas próprias) se aperceba.

Então, que variações da anatomia sexual contam como categoria intersexo? Na prática, pessoas diferentes têm respostas diferentes a esta questão. Não surpreende uma vez que o intersexo não é uma categoria discreta ou natural.

 Mas o que significa isto? Intersexo é uma categoria socialmente construída que reflete variações biológicas reais. Para melhor explicar esta ideia podemos ligar o espetro sexual ao espetro de cores. Não há dúvida de que na natureza existem diferentes comprimentos de onda que se traduzem em cores visíveis para a  maioria de nós como o vermelho, azul, laranja ou amarelo. Mas a decisão de distinguir entre, digamos, o vermelho e o vermelho alaranjado só acontece quando precisamos efetivamente dessa decisão – como quando nos pedem uma tinta de uma cor específica. Por vezes a necessidade social leva-nos a fazer distinções de cor que de outra forma surgiriam como incorretas ou irracionais, como, por exemplo, quando nos referimos a algumas pessoas como “pretas” ou “brancas” quando na realidade não são exatamente pretas nem brancas.

Da mesma forma, a natureza oferece-nos um largo espetro de anatomia sexual. Seios, pénis, clitóris, escrotos, lábios, gónadas - todos variam em tamanho, forma e morfologia. Os cromossomas “sexuais" podem igualmente variar significativamente. Mas nas sociedades humanas, as categorias sexuais tendem a ser simplificadas em masculino, feminino e, por vezes, intersexo, de forma a facilitar as interações sociais, expressar o que sentimos e conhecemos e manter a ordem social.

Portanto, a natureza não decide onde a categoria "masculina" termina e a categoria "intersexo" começa ou onde a categoria "intersexo" termina e a categoria "feminina" começa. Os seres humanos é que decidem. Os seres humanos (atualmente, maioritariamente médicos) decidem o quão pequeno um pénis tem de ser ou o quão incomum uma combinação de características tem de ser, para contar como intersexo. Decidem se uma pessoa com cromossomas XXY ou cromossomas XY e insensibilidade aos andrógenos se enquadra, ou não, como intersexo.

No nosso trabalho, descobrimos que as opiniões dos médicos sobre o que deve contar como "intersexo" podem variar consideravelmente. Alguns defendem que se tem de ter "genitália ambígua" para se ser considerado intersexo, mesmo se a anatomia interna é principalmente de um sexo e a externa é maioritariamente de outro. Outros defendem que o cérebro da pessoa tem de ser exposto a uma mistura incomum de hormonas pré-natais - de modo que mesmo que a pessoa tenha nascido com genitais atípicos, não é considerada intersexo a menos que o seu cérebro tenha igualmente experimentado um desenvolvimento atípico. Há ainda os que defendem a  presença simultânea de tecido ovariano e testicular para caracterizar o intersexo.

 Em vez de perder tempo num jogo semântico sem fim, nós, na Sociedade Intersexual Norte Americana (ISNA) defendemos uma abordagem pragmática para a definição da categoria intersexo. Trabalhamos para construir um mundo livre de vergonha, silêncio e cirurgias genitais indesejadas para qualquer pessoa nascida com o que alguns acreditam ser uma anatomia sexual fora da norma.

A propósito, porque algumas formas de intersexo refletem preocupações metabólicas subjacentes, uma pessoa que pensa poder ser intersexo deve procurar obter um diagnóstico e descobrir se precisa de cuidados de saúde profissionais.

Tradução de Sandra Cunha.

Artigo da autoria da Sociedade Intersexual Norte Americana.

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