You are here

2ª circular: o problema são os automóveis

O debate sobre a segunda circular acabou por falhar no que era essencial discutir: a mobilidade na cidade de Lisboa.

A CML anunciou que pretende requalificar a 2ª circular e que as obras se iniciarão em junho. A intervenção tem um custo previsto de 10 milhões de euros e um prazo de 300 dias. A polémica instalou-se e o debate acirrou.

É incontestável que Fernando Medina quer marcar o seu meio mandato com uma grande obra. Se o corte da fita for próximo das eleições autárquicas de 2017 junta-se o útil ao agradável. Campanha eleitoral sem inaugurações não é campanha. Também é verdade que na outra barricada entrincheirou-se o Automóvel Clube de Portugal liderado por Carlos Barbosa, que por acaso também foi o cabeça de lista do PSD à assembleia municipal nas últimas eleições.

Vários foram os debates e as vozes que acompanharam a consulta pública. Foi-se tornando claro o consenso em torno das medidas que melhoram as condições de segurança, tráfego e ambientais nesta infraestrutura viária. Melhorar o tipo de pavimento, a iluminação, a drenagem, as entradas e saídas na via, a sinalização e a colocação de barreiras acústicas, foram os pontos que não geraram controvérsia. Quem quis desviar a discussão, e procurar simplesmente distanciamento político, acenou com os riscos de colisão de pássaros com aviões decorrentes do reforço de arborização. A ANA e NAV – navegação aérea de Portugal desfizeram este mito e arrumaram o assunto.

Mas o debate acabou por falhar no que era essencial discutir: a mobilidade na cidade de Lisboa. Concordando que a requalificação da 2ª circular é uma obra necessária, perdeu-se a oportunidade de refletir sobre os graves problemas de mobilidade na cidade e nas soluções que precisamos de encontrar.

Em primeiro lugar, é desajustado planear uma intervenção de desclassificação da 2ª circular, reduzindo a velocidade de circulação e o número de veículos, sem pensar em alternativas. É a política de varrer para debaixo do tapete e empurrar os problemas para outras zonas da cidade. A requalificação da 2ª circular faz sentido, mas tem necessariamente de ser realizada em simultâneo e articuladamente com as restantes transversais de Lisboa que funcionam como alternativas.

Mas, a principal desilusão da proposta da CML é a centralidade do automóvel na discussão de soluções para a mobilidade urbana. Uma intervenção com esta dimensão, com forte impacto financeiro e, sobretudo, com consequências na vida das pessoas, durante e depois do período da obra, deveria ser a oportunidade para repensar o papel dos transportes públicos coletivos na cidade. Continuar a olhar para os problemas de mobilidade na cidade sentados ao volante do automóvel é perpetuar o problema, agravando-o.

Desde 2005 que o Bloco defende medidas que, combinadas, contribuam para uma forte redução do tráfego automóvel dentro da cidade. Essa redução passa não apenas por medidas de gestão da rede viária da cidade, envolvendo a 2ª circular mas não só, mas sobretudo pela promoção de transportes coletivos em sítio próprio de grande capacidade nesta artéria. Uma delas, tem sido a criação de uma rede de elétricos rápidos articulados que permitisse uma ligação transversal (este-oeste) da cidade e permitindo a articulação direta entre a Linha de Sintra (CP), o Aeroporto e a Gare do Oriente.

Este investimento de reformulação da 2ª circular seria a oportunidade ideal para reservar um corredor para este tipo de transporte público permitindo fechar uma semicircular externa que ligasse todas as linhas de metro que saem radialmente do centro da cidade.

Sobre o/a autor(a)

Vereador do Bloco de Esquerda na Câmara Municipal de Lisboa, eleito em 2017. Engenheiro civil.
Comentários (1)