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Um jogador em Belém

Que fará Marcelo? Prometeu ser árbitro mas vai ser jogador, vai jogar e conspirar dentro e fora das instituições.

Marcelo foi eleito à primeira mas com fragilidades, bem longe dos 60 ou 70% das primeiras sondagens, o que lhe diminui a representatividade – como sibilinamente Passos Coelho assinalou no seu mini comentário. Nunca, para um primeiro mandato, um presidente teve tão poucos votos e todos conseguiram taxas de participação eleitoral mais altas. Foi por pouco que Marcelo não foi obrigado a uma segunda volta: bastaria que Edgar Silva tivesse segurado o eleitorado comunista ou que, perante o desabar da sua candidatura, Maria de Belém tivesse desistido para Sampaio da Nóvoa.

Marcelo foi eleito à primeira mas com fragilidades, o que lhe diminui a representatividade. Nunca, para um primeiro mandato, um presidente teve tão poucos votos e todos conseguiram taxas de participação eleitoral mais altas

Marcelo foi eleito por mérito próprio mas, também, por demérito dos outros, de cujos erros e omissões beneficiou, desde logo da falta de comparência do PS nesta disputa eleitoral. Julgo que Costa irá arrepender-se de ter levado tão longe o seu reconhecido taticismo. E digo isto porque não vislumbro, ao contrário do que outros já anunciam, um túnel do amor entre os palácios de Belém e São Bento. Mesmo que o plano de Marcelo passe pela recondução ao centro da política portuguesa – e duvido muito que seja essa a sua estratégia - o que para Marcelo poderia ser a chave para uma reeleição tranquila, seria para Costa o princípio do fim.

Os resultados mostram que Marcelo podia ter sido derrotado. Faltou o PS mas faltou algo mais. Falou-se muito das incoerências de Marcelo mas muito pouco das suas coerências, como se Marcelo não fosse mais que o catavento de que falava Pedro Passos Coelho. Essa é uma falsa imagem do futuro presidente: há uma linha de grande coerência entre o Marcelo que, na ditadura, apoiava Caetano e o Marcelo que, em democracia, é a favor do aborto clandestino, tem por grande amigo Ricardo Salgado e nunca levantou um dedo contra os favores à banca ou contra a violência social da precariedade.

Marisa fez uma grande campanha, expandiu o campo da esperança e da mudança política. Ficou demonstrado que a sua candidatura foi a opção certa para alargar a mobilização da esquerda

Maria de Belém nunca devia ter concorrido. Não tendo desistido, viveu uma tragédia. Péssima para ela mas que se esgota em si mesma, seja qual for a efervescência que ainda possa provocar no PS. Uma candidata que não sabe distinguir direitos de privilégios não merece melhor resultado.

Edgar Silva ficou abaixo dos 4%, uma má e surpreendente notícia. O candidato do PCP esteve em risco de ficar atrás de Tino de Rans e acabou a noite com uma vantagem de apenas 30 mil votos, o que dá bem ideia da dimensão do descalabro. Tão profunda implosão não pode resultar apenas de uma má campanha ou de um mau candidato. A direita, interesseira claro, já diz que é um cartão vermelho mostrado ao PCP pelos eleitores comunistas devido à convergência com o PS e o Bloco de Esquerda. Nada mais falso. O que pode afastar e desorientar são algumas recentes e infelizes expressões de sectarismo e arrogância por parte de dirigentes do PCP. Os eleitores não compreendem e não aceitam que um partido tão tolerante com os ditadores de Angola ou da Coreia do Norte seja tão inflexível na relação com as forças de esquerda. À esquerda, a eleição de Marcelo acrescenta novas razões para juntar forças e não para separar, afastar, dividir.

O Bloco, à esquerda, foi o único que cumpriu. Marisa fez uma grande campanha, falou do país e das pessoas, recusou as pressões da banca e poderes europeus, expandiu o campo da esperança e da mudança política, combateu as mordomias de quem manda. Ficou demonstrado que a sua candidatura foi a opção certa para alargar a mobilização da esquerda. Mais um pouco, tinha conseguido a segunda volta. A nova geração de dirigentes do Bloco – a geração 10%, que estas eleições voltam a legitimar, garante mais exigência e responsabilidade sobre a governação. São um motivo de confiança para o futuro.

Para Marcelo a governação de António Costa apoiada à esquerda é um intervalo. Há uma elite à espera que passe depressa. Para que ela não desespere, o papel de Marcelo é encurtar esse tempo

Que fará Marcelo? As tensões deste novo ciclo político, a conjuntura europeia, as dificuldades do país e até a própria personalidade de Marcelo tornam difícil a resposta. Prometeu ser árbitro mas vai ser jogador, vai jogar e conspirar dentro e fora das instituições. Conspirar para mudar o regime, colocar Belém no centro da política portuguesa e lançar-se na reconstrução de um bloco social e político de direita, moldando as lideranças da direita. Para Marcelo esta governação de António Costa apoiada à esquerda é um intervalo. Há uma elite à espera que passe depressa. Para que ela não desespere, o papel de Marcelo é encurtar esse tempo.

Artigo publicado na revista “Visão” de 28 de janeiro de 2016

Sobre o/a autor(a)

Médico. Aderente do Bloco de Esquerda.
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