O futuro não tem de ser nublado

porMaria Luísa Cabral

29 de January 2016 - 13:28
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Depois de um período de enorme intensidade cívica e política, venha alguma reflexão.

1. O legado de Marisa Matias. Legado, sim, não encontro melhor palavra. Lutou e criou um património, introduziu um novo paradigma de intervenção política. Contudo, pelo expressivo acolhimento traduzido numa votação superior a 10%, vamos ter de olhar para o que foi dito, como foi dito, a quem foi dito. E interiorizar sem rodeios os caminhos apontados. Com responsabilidades acrescidas, temos pela frente trilhos definidos. Vamos percorrê-los? Seguramente. Vamos lutar pela sua expansão e aprofundamento? Mais do que certo. A este todo, chama-se património. Porque o herdamos, legado. Com uma mais valia: é que a Marisa vai estar connosco e, juntos, vamos construir propostas e encontrar outras soluções. Redobrando, claro, a nossa atenção contra algum branqueamento à solta por aí. O mais recente foi a soma de votos à esquerda feita por Santana Lopes (26 Jan SIC Notícias 22h.), Nóvoa 23%, Maria de Belém 4% concluindo que mal chegavam a metade dos 52% obtidos pelo candidato da direita. Como se constata, total isenção e objetividade.

A maioria parlamentar de esquerda terá de ir mais longe e, não podendo avançar em todas as frentes, então, que faça escolhas que possam ser compreendidas por todos, por aqueles que são abrangidos e pelos que não são

2. As eleições revelaram o que julgávamos desaparecido. Engano, mentira. Não é do Portugal profundo que falamos. Com toda a perícia disponível, as televisões mostram incansavelmente esses portugueses cheios de bom senso, ponderação, em busca do paraíso. Como eles próprios se definem, satisfeitos. Cristo no céu, Marcelo na terra. Dá que pensar e vai obrigar a uma intervenção que se antevê longa e dorida. Cruzamos o território de norte para sul e do litoral para o interior, visitamos os grandes centros urbanos, as cenas repetem-se. Então, mas ele é tão simpático, amigo…preocupa-se com os pobres…se aqui vier, até o levamos ao colo…ele merece….come como nós, simples, uma marmita. Ora, se estivéssemos apenas a falar do Portugal profundo, a percentagem não teria chegado aos 52%. Esta percentagem também resulta dos votos conseguidos nos meios urbanos, na classe média alta, entre quem deveria ter outra sensibilidade política. Mais importante do que o malabarismo dos números e sua justificação com [hipotéticas] fugas interpartidárias, é interpretar o cenário escarrapachado à nossa frente. A votação foi cumprida como uma peregrinação. A convicção de que Marcelo traz uma certeza de salvação espalhou-se por todo o país. Em que se baseia esta crença? Na inconsequência com que se defende uma coisa e o seu contrário, na ausência de juízos fundamentados sobre a situação política, os seus intérpretes e os seus jogos. Marcelo sopesou esta realidade, leu os sinais, aproveitou-os e o resultado está à vista. Entre uma visita à funerária e uma dentada num pastel, uma passagem pelo boticário e muitas beijocas, aplicou um modelo vazio de conteúdo, popularucho, direto e fácil. Uma mão vazia, outra cheia de nada. Nem houve confusão nem ninguém roubou nada a ninguém. O problema reside na enorme falta de informação, um convite à manipulação. Não temos de viver paredes-meias com esta situação, antes impedir a sua perpetuação e lavrar tanta terra abandonada.

3. A recuperação de cariz social e económico embora titubeante cria ânimo. Todavia, não chega; há quem não sinta a diferença e se indigne. A maioria parlamentar de esquerda terá de ir mais longe e, não podendo avançar em todas as frentes, então, que faça escolhas que possam ser compreendidas por todos, por aqueles que são abrangidos e pelos que não são. E seria interessante projectar casos em que os benefícios agora legislados fossem vários e simultâneos para que se evidenciem as diferenças. Clarificar para impedir a contra informação e a manipulação. Espraiar e fortalecer a esperança, com certeza. Ou, como as campanhas nos ensinaram, nada substituiu a verdade.

Maria Luísa Cabral
Sobre o/a autor(a)

Maria Luísa Cabral

Bibliotecária aposentada. Activista do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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