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Vitória da direita: “Playing with big boys now”

A vitória presidencial de uma direita que sorri para as câmaras é um desafio que a esquerda tem de levar a sério.

Os meios de comunicação social dominantes dizem que o ilusionista Marcelo Rebelo de Sousa (opinion maker da direita nos últimos 15 anos e líder do PSD entre 1996 e 1999) fez uma campanha sem outdoors e sem máquina partidária – parece que os seus 52% nasceram do nada. Esta má imprensa oculta o óbvio: Marcelo era o mais destacado comentador político do país e estava em campanha há 15 anos todos os domingos na televisão (Jornal das 8 da TVI, 2000-2004 e 2010-2015, e As Escolhas de Marcelo, na RTP1, 2005-2010).

Antes, durante e depois da campanha foi escandaloso o apoio dos grandes grupos de comunicação social a Marcelo. Esse papel foi desempenhado por todas as TV’s, a generalidade dos jornais, não faltando naturalmente o apoio, entre outros, do Grupo Impresa. Destaco este grupo, detentor da estação de televisão SIC e de vários periódicos de referência, grupo fundado pelo histórico dirigente do PSD Francisco Pinto Balsemão, apenas para lembrar que as hegemonias de determinados grupos político-económicos minam a imprensa, por muito polidos que sejam. Quem tem capas de jornal e um exército de comentadores e pseudojornalistas a favorecê-lo: não precisa de outdoors. Simbólico disso foram os 5 minutos de cobertura ao seu voto pela própria televisão pública, RTP, um “exagero” já criticado pela Comissão Nacional de Eleições.

Quanto à máquina partidária: o funcionamento discreto do apoio dos partidos de direita (PSD e CDS) só o foi porque prejudicava a campanha, vinham derrotados das legislativas com a solução de governo apoiada no parlamento pelo PS e pela esquerda. Embora sejam conhecidas as posições conservadoras de Marcelo sobre o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo, e apesar de este ser um apoiante habilidoso da política de austeridade, Marcelo é também um malabarista das palavras e das posições, conforme o público e o momento adapta as suas posições e até se desdiz a si próprio. Exemplo disso é a sua posição sobre a reposição dos cortes nos salários e pensões, foi contra essa decisão mas agora já diz que foi a favor. O desplante já foi ao ponto de se dizer da “esquerda da direita”, fica registado no anedotário político nacional.

O centrismo não mobilizou a esquerda nem o centro. Revelou-se negativo e inútil o facto de António Sampaio da Nóvoa (segundo lugar, 22,9%) se ter colado muito às posições do PS: nomeadamente na aceitação do uso de dinheiro público para tapar o buraco financeiro do Banif e na sua aceitação das restrições do Tratado Orçamental, questões onde se demonstraram as razões fortes para não ter conseguido mobilizar o apoio da esquerda. Embora Nóvoa fosse apoiado pelos ex-presidentes Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio, isso não foi suficiente para ir mais além. Já Maria de Belém (4,24%, quarto lugar), candidata pela ala do PS mais hostil ao acordo parlamentar do PS com as esquerdas, que acumulou ligações aos interesses financeiros sobre a saúde enquanto presidiu a comissão parlamentar da mesma pasta, deu o golpe final na sua própria candidatura ao ter sido subscritora do pedido de reposição das subvenções vitalícias aos ex-detentores de cargos políticos (em relação aos cortes de aposentados e trabalhadores assalariados Maria de Belém nunca fez nada). Parece que apesar de todos os centrismos, pois havia mais, foi mesmo a “esquerda da direita” quem comeu o centro e desfez a hipótese da segunda volta.

À esquerda, destaca-se o resultado de Marisa Matias, terceiro lugar, 10,13%. Um resultado que foi conquistado, não foi herdado das legislativas. A amplitude do espaço político próximo do Bloco nunca tinha alcançado os 10% a nível das presidenciais. Este resultado é portanto um dado novo para um espaço político que vai ganhando maior consistência. Marisa Matias ficou em terceiro lugar em 17 círculos do território nacional e nos votos da emigração. Nos únicos três círculos onde fica em 4º tem também mais de 10%. Nesses três círculos, Évora, Beja e Madeira, é ultrapassada por Edgar Silva, natural da referida região autónoma, apoiado pelo PCP e pelos Verdes, que a nível nacional ficou em quinto lugar com 3,95%. Mesmo em localidades de forte enraizamento autárquico PCP-PEV, é inegável a existência de um espaço político à esquerda que se identificou com a candidatura de Marisa. As candidaturas apoiadas pelo Bloco continuam a somar esquerda à esquerda.

Entretanto, o ainda presidente Cavaco Silva levantou-se cedo na manhã seguinte às eleições para comemorar a vitória da direita/Marcelo: anunciou o veto à lei que permite adoção por casais do mesmo sexo e alterações à lei do aborto. As leis serão devolvidas ao parlamento e este confirmará a intenção inicial de fazer progredir os direitos e liberdades. Mas não deixa de ser uma sombra conservadora que lembra o que custa ter um presidente de direita. Ainda te lembras do que aconteceu com a crise política do verão de 2013?

“Tu brincas com profissionais” é um nome que na versão de língua inglesa revela uma cultura machista e trata-se, simultaneamente, do título e do refrão de uma música do filme O Príncipe do Egipto (DreamWorks Animation, 1998). Ilusões e magia dos sacerdotes para assustar o messiânico Moisés, vindo ou regressado de fora com favor divino e verdadeiro. Desta vez, ao contrário do conto bíblico, o messianismo não triunfou, foi a vez dos feiticeiros: Marcelo ganhou. Felizmente há outra via que se abre, à esquerda, feminista e tudo: “A esperança conquista-se!”.

Atualizado a 26 de janeiro de 2016 às 15.50 h

Sobre o/a autor(a)

Investigador. Mestre em Relações Internacionais. Dirigente do Bloco de Esquerda.
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