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A minha geração

Sou da geração que toma tudo o que tem como adquirido e imutável, desde as eleições até ao direito de se reunir, organizar e protestar. Sou duma geração que já pode escrever o que pensa sem ter receio da censura e de represálias e que tem tudo garantido. Será?

Quando nasci, não havia propinas. Graças ao 25 de Abril e à luta da Esquerda, estudar em Portugal era gratuito, como continua a ser em vários países da Europa. Hoje em dia a esmagadora maioria dos jovens em idade de estudar não tem dinheiro para pagar a 3ª propina mais cara da UE. Em 2010 já mais de dez mil estudantes se endividaram, como eu, para ter acesso ao conhecimento porque, ao contrário de países como a Grécia, ter direito a bolsa é cada vez mais uma miragem. A Constituição que Abril nos deu garante o Ensino Superior como tendencialmente gratuito. Pagamos 1000 euros por ano só em propinas, sem contar com todos os gastos em livros, alojamento, comida, etc. É este o nosso mar de rosas.

Por isso, a grande parte dos jovens portugueses é explorada num trabalho precário. Os trabalhadores-estudantes povoam os call-centers e as filas para um "trabalho temporário". No PREC todos os partidos queriam o pleno emprego, a possibilidade desse emprego ser estável, direito humano básico. Hoje, tudo desmoronou. É o próprio Estado a contratar centenas de milhares de funcionários a falsos recibos verdes, a legitimar o crime e o abuso. São poucos os jovens que esperam ter um emprego depois de terminarem o curso. Sabem que podem "safar-se" aqui e ali, mas ninguém sabe como vai pagar a bola de neve que é o empréstimo de Gago e Sócrates. Os nossos pais começaram com nada, nós começamos com um fardo de milhares de euros em dívida. É este o nosso mar de rosas.

Agora para nos dar uma ajuda, o PS apresenta-nos o PEC: cortar nos apoios sociais, vender empresas públicas que dão lucro e que são bem geridas. A pouco e pouco, o PS vai convergindo com a estratégia neoliberal para vender - mesmo - tudo o que é de todos para dar a muito poucos, muito ricos.

Perspectiva-se uma vida cada vez mais difícil para a minha geração, nada está garantido e os representantes dos patrões estão no poder e não têm escrúpulos. Mas não nos podemos submeter ao consenso mole que nos é imposto e que nos quer fechar entre quatro paredes de conformismo, sem janelas para outra vida, para outro mundo que é possível.

Esta é a luta dos jovens de hoje: reconstruir e expandir a democracia pela qual os nossos pais lutaram e que a agenda neoliberal quer destruir.

Sobre o/a autor(a)

Gestor de redes sociais, investigador em comunicação política.
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