You are here

Repúblicas, uma lição de vida

Definir as Repúblicas apenas casas pelas suas festas, o seu barulho e a sua vida boémia é negar- lhes a sua própria essência. É negar-lhes a sua magia e a sua História.

Se alguém me dissesse que Repúblicas são estudantes privilegiados e assistidos que se aproveitam do Estado, eu responderia: quem me dera que fosse isso. Se esse alguém me dissesse que Repúblicas é barulho, festa e vida boémia, eu responderia: quem me dera que fosse só isso.

Qualquer pessoa que já passou por estas casas, conviveu com os seus membros, antigos repúblicos e amigos, viajou pelo seu passado e pelas suas vivências, nunca iria dizer que Repúblicas é só barulho, festas, vidas de boémia e por aí fora.

Quem já entrou, morou, conviveu, festejou nestas casas, dir-lhe-á que há magia. Magia porque Repúblicas não são meras habitações de estudantes mas casas de portas eternamente abertas. Em que há sempre tempo para aqueles que têm a curiosidade de passar a porta de entrada. Em que há sempre um espaço, nem que seja um recanto, para aqueles desprevenidos que chegam sem saber onde é que hão de ficar ou para onde é que hão de morar. Em que há sempre como adicionar um prato na mesa para aqueles com quem não se estava a contar para o jantar. Em que há histórias de vida tão diversas, pessoas com experiências, ideias e horizontes múltiplos e diferentes. Em que o tempo fica suspenso e se vive tão intensamente que se costuma dizer que um ano de vida numa República são cem anos de vida fora dela. Em que há sempre aquela saudade quando se sabe que o nosso tempo na casa está prestes a acabar e aquele brilho nos olhos quando se sabe que é para voltar.

Quem já entrou, morou, conviveu, festejou nestas casas, dir-lhe-á que há História. História porque Repúblicas não são meras habitações de estudantes mas espaços de vida intemporais. Porque se cruza a História com histórias de vidas individuais. Porque são lugares onde se agregam símbolos e frescos legados de outros tempos com pessoas de carne e osso que compõem a nossa realidade presente. Porque são casas que são e dão testemunhos do passado e das gerações que contribuem para a construção de um rumo futuro. Porque são paredes carregadas de vivências e museus- vivos que transmitem, através dos seus moradores, histórias de um tempo alheio. Porque são um património incomensurável, porque são uma cultura em constante movimento, porque são lutas travadas e sonhos idealizados.

Quem já entrou, morou, conviveu, festejou nestas casas, dir-lhe-á que têm alma. Alma porque Repúblicas não são meras habitações de estudantes mas espaços regidos por princípios de vida. Em que se consagra a fraternidade, a liberdade, a amizade como valores máximos da existência. Em que há companheirismo e onde se aprende a zelar uns pelos outros, a ter uma voz, a dizer o que se pensa. Em que se encontram famílias sempre prontas a acolher no seu seio um novo membro e com quem se aprende a viver juntos com todas as diferenças. Em que se promove a igualdade e onde as hierarquias sociais não se aplicam. Em que se pode tratar por tu um "velhinho da casa" de sessenta ou setenta anos e debater com ele livremente e até às tantas sem nunca chegar a um compromisso. Em que existe altruísmo e solidariedade e em que nunca se está à espera de receber mas sempre se está preparado para dar.

Quem já entrou, morou, conviveu, festejou nestas casas, dir-lhe-á que são verdadeiras escolas de vida. Escolas de vida porque Repúblicas não são meras habitações de estudantes mas lugares de aprendizagem. Porque são momentos passados que nos levaram a crescer, a amadurecer, a ultrapassar os nossos próprios limites e as nossas próprias esperanças. Porque nestas casas, a palavra responsabilidade aplica- se no dia-a-dia. Porque os seus membros são capazes de parar de estudar, por vezes seis meses ou um ano, dedicando todo o seu tempo e dinheiro para manter e melhorar a casa - construindo uma cave, restaurando uma cozinha ou uma casa de banho, reparando um telhado. Porque os seus membros são capazes de permanecer nas Repúblicas em dificuldade, após terem concluído o curso, para as salvar. Porque se aprende a viver em comunidade e a gerir de forma democrática estes espaços de vida. Porque se aprende a partilhar tudo e a qualquer momento, a respeitar e construir o que constitui o bem mais comum a todos, a Casa.

Não se enganem, não estou a dizer que não há festas nas Repúblicas. Há, mas definir apenas estas casas pelas suas festas, o seu barulho e a sua vida boémia é negar-lhes a sua própria essência. É negar-lhes a sua magia e a sua História. É negar-lhes o seu papel de aprendizagem e de ensinamento. É negar-lhes a identidade, o espírito, a alma.

Vão a estas casas, passem a sua porta de entrada, conheçam o seu passado, apreciem as suas vivências, convivam com as vidas que por lá andam e que por lá andaram.

Sobre o/a autor(a)

Membro da Real República Boa-Bay-Ela (Coimbra); estudante de mestrado em Relações Internacionais na Universidade de Coimbra e em Ciência Política no Instituto de Ciência Política de Bordéus
(...)