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Trabalhadores de todo o país, uni-vos!

A prova de como a ideologia dominante tem feito o seu caminho encontra na questão dos direitos laborais uma preocupante evidência.

Muita gente critica, por exemplo, os trabalhadores da TAP, da CP ou dos transportes públicos urbanos porque ganham acima do salário médio (que é muito baixo, a rondar os 800 euros) ou porque conseguem fazer greves bem sucedidas ou, ainda, porque têm tal ou tal "privilégio" relativo. Não se questiona, em tais alturas, que devemos nivelar por cima e não por baixo, de maneira a qualificar o trabalho; que esta espécie de divisões entre os trabalhadores só beneficiam os empregadores, em particular os que acumulam riqueza graças aos baixos salários e às más condições de trabalho e que a capacidade de mobilização coletiva desses setores é o que em boa parte explica a sua melhor resistência às sucessivas vagas de desregulação.

Agora é o ataque às 35 horas, insistindo-se mais uma vez na divisão entre os trabalhadores do público e do privado. Ora, o Estado deve, precisamente, dar o exemplo, regular, puxar, incentivar. O objetivo é que todos e todas possam usufruir de uma progressiva redução do horário de trabalho, até porque está provado que tal contribui para a disseminação de novas e mais inovadoras formas de organização do trabalho, que aumentam a produtividade. Mas, acima de tudo, parece que esquecemos o desígnio civilizacional de melhorar a vida das pessoas, de partilhar o trabalho que existe, de explorar as possibilidades do lazer no combate à alienação.

É como se os mais prejudicados, os próprios trabalhadores, tantas vezes, abdicassem de lutar pelos seus direitos, preferindo combater os seus camaradas, querendo que eles fiquem pior.

Um estudo recente a 5.000 trabalhadores portugueses mostra que o risco de esgotamento aumentou, que a exposição ao stress é maior e que mais de 87% não se sentem recompensados.

É este o país que queremos?

Defender as 35 horas é não renunciar aos mínimos de dignidade na vida.

Sobre o/a autor(a)

Sociólogo, professor universitário, Presidente da Associação Portuguesa de Sociologia. Dirigente do Bloco de Esquerda.
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