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Humanizar o SNS é o contrário de ceder ao marketing das maternidades privadas

Alargar às cesarianas a presença do pai ou outra pessoa como acontece nos partos normais só terá uma consequência: aumentar a pressão para a realização de cesarianas mesmo quando elas não são necessárias, sem que a mãe ou a criança tirem dessa presença qualquer benefício.

Chegou ao Parlamento uma petição assinada por 4313 pessoas que pretendem ver assegurada “a presença do pai ou de outro acompanhante nas cesarianas programadas de baixo risco em todas as unidades do SNS onde nascem crianças”.

Do que li, todos os grupos parlamentares acham a ideia fantástica e apoiam a reclamação destes peticionários. O CDS logo correu a apresentar projeto de lei. Estranho esta generalizada concordância. Sobretudo nos grupos à esquerda que sempre procuraram que a saúde não se transformasse nem copiasse o negócio dos privados. Desta vez, deixaram-se convencer pelo marketing das maternidades particulares.

O caminho da humanização do SNS não se faz importando do privado práticas e processos ditados pelo marketing do negócio das cesarianas

A esquerda distraiu-se, não olhou para lá das aparências, deixou-se sensibilizar pelos bons sentimentos e boas intenções que adornam o texto. A petição é daquelas coisas que parecem imaculadas. Mas não é bem assim: o que a petição propõe não traz qualquer benefício para a grávida ou para a criança, pelo contrário, a sua única consequência é potenciar os riscos de que podem vir a ser vítimas pela banalização e multiplicação das cesarianas. Desta petição o único resultado a esperar é mais pressão para a realização de cesarianas sem motivo clínico, é facilitar a opção pela cesariana. Não há qualquer razão para o SNS importar esta moda dos hospitais privados, ela não se traduz em qualquer avanço no domínio da qualidade e da humanização, nem para os progenitores nem para as crianças. O caminho da humanização do SNS não se faz importando do privado práticas e processos ditados pelo marketing do negócio das cesarianas. Tentarei, de seguida, fundamentar a minha opinião discordante e, certamente, controversa.

Fazem-se mais cesarianas em Portugal que em todos os outros países europeus, só em Itália a taxa é maior do que a nossa. Portugal está no pelotão da frente em matéria de cesarianas. Infelizmente, esta liderança é uma expressão de atraso do país. E, pior, constitui um risco para as grávidas e para as crianças que vão nascer

Portugal tem um problema gravíssimo com o número excessivamente alto de cesarianas. Fazem-se mais cesarianas em Portugal que em todos os outros países europeus, só em Itália a taxa é maior do que a nossa. Portugal está no pelotão da frente em matéria de cesarianas. Infelizmente, esta liderança é uma expressão de atraso do país. E, pior, constitui um risco para as grávidas e para as crianças que vão nascer.

O problema é tão grave que, em 2013, o governo criou a comissão nacional para a redução da taxa de cesarianas, cujo trabalho deu algum resultado num pequeno intervalo de tempo.

A OMS recomenda uma taxa de cesarianas não superior a 15%, embora este valor – fixado em 1980 – deva ser revisto em alta por não refletir ainda as alterações introduzidas quer pela PMA quer pela tendência para a maternidade tardia.

Em Portugal, a taxa de cesarianas é de 33%, fortemente empurrada pela elevadíssima taxa dos hospitais privados: 67% em 2012. No SNS, foi de 28% em 2014 e de 31% em 2013. Os privados fazem cerca de 15% de todos os partos realizados no país.

Percebe-se com muita facilidade a razão deste excesso de cesarianas no privado. Não são, sobretudo, razões clínicas mas sim comerciais: os “clientes” pagam mais por uma cesariana do que por um parto normal, as cesarianas são mais rentáveis para o negócio.

O que devia ser apenas uma decisão médica, um recurso clínico para situações de risco, transformou-se numa moda, numa comodidade com dia e hora marcada, que se promove e vende como qualquer outro produto

O que devia ser apenas uma decisão médica, um recurso clínico para situações de risco, transformou-se numa moda, numa comodidade com dia e hora marcada, que se promove e vende como qualquer outro produto, explorando a particular sensibilidade da mãe, do pai, da família e até dos amigos em relação a tudo o que gravita à volta do momento mágico que é o anunciado nascimento de uma criança.

Lemos e ouvimos o marketing dos hospitais privados e de toda a indústria que cresceu em torno da maternidade: tire a primeira fotografia ao bebé, filme o parto e os primeiros momentos da criança, seja o primeiro a pegar no bebé, veja com quem se parece a criança, partilhe esta alegria com a mãe, não falte à festa da vida, o bebé não lhe vai perdoar a ausência, enfim, tudo se promete e permite na sala de partos para atrair mais clientes, em nome de aumentar o chorudo negócio das maternidades privadas.

E assim se abriram as portas das salas de parto aos pais e familiares. No público – e muito bem, por razões de maior humanização da assistência e, no privado, também por isso mas, sobretudo, como forma de atrair as mulheres grávidas para as maternidades privadas.

E agora, pretende-se que a moda chegue às cesarianas como já acontece no privado – o negócio assim o exigiu - procurando que o SNS importe modelos e práticas das maternidades privadas que pouco ou nada têm a ver com a humanização, qualidade dos cuidados ou exigências clínicas.

Os privados rapidamente perceberam que tinham de alargar às cesarianas o que já permitiam no parto normal: a presença do pai ou de outra pessoa indicada pela grávida para que, na comparação, a cesariana não saísse diminuída e o cliente não preferisse o parto normal, bem menos rentável para o negócio. Facilitar a opção pela cesariana, é o objetivo. E, claro, as cesarianas não param de aumentar.

A questão é saber se são ou não aceitáveis os riscos acrescidos para a mulher e para a criança decorrentes de um aumento das cesarianas. E ainda, saber se é ou não adequado que alguém assista a uma cirurgia, no caso uma cesariana, num bloco operatório, e se é ou não justificável a abertura de uma exceção para as cesarianas. Julgo que não

A questão é saber se é ou não razoável o que a petição reclama, se são ou não aceitáveis os riscos acrescidos para a mulher e para a criança decorrentes de um aumento das cesarianas. E ainda, saber se é ou não adequado que alguém assista a uma cirurgia, no caso uma cesariana, num bloco operatório, e se é ou não justificável a abertura de uma exceção para as cesarianas. Julgo que não.

Ao contrário do parto normal, uma cesariana é um tratamento cirúrgico. Uma cesariana decide-se na hora para fazer frente a complicações do parto. Mas pode programar-se em duas circunstâncias bem diferentes: nos casos em que há um risco previamente conhecido - que uma cesariana pode resolver - ou por ser essa a vontade da grávida mesmo que não haja qualquer risco conhecido.

A maior parte das cesarianas – como acontece no privado – são a pedido da mulher e não decorrem de qualquer presunção de risco mas sim de outras motivações (comodidade, privacidade, tranquilidade, segurança, confiança, estatuto,...) que orientam a preferência da grávida e sobre as quais o marketing faz a sua campanha. Devemos interrogar-nos sobre se o saldo é positivo: na maior parte dos casos, onde não havia qualquer risco para a mãe ou para a criança passa a haver o risco cirúrgico introduzido pela cesariana.

Risco passa a existir durante a cesariana porque qualquer cirurgia comporta sempre riscos acrescidos. Diz o presidente da comissão nacional para a redução das taxas de cesariana: “Risco tanto na própria cirurgia, com lesões noutros órgãos, hemorragias, ou logo a seguir, com o risco de infeção. Também há consequências negativas para os recém-nascidos, que ficam com riscos respiratórios cinco vezes superiores, acrescidos na infância de um risco de diabetes e de asma 25% superior aos dos partos normais”.

Sabe-se que as complicações resultantes da anestesia são duas vezes superiores, as lesões urológicas acontecem 31 vezes mais e o risco de grandes hemorragias é 11 vezes maior. Após a cirurgia o risco de infeção é 11 vezes superior, enquanto o de trombo-embolismo quadruplica. O óbito materno acontece cinco vezes mais nos partos por cesariana. Numa gravidez seguinte também podem surgir mais problemas com a placenta, sendo o risco de morte do feto 1,6 vezes superior.

Para proteger a saúde da mãe e do recém nascido o ideal seria que a cesariana fosse apenas um ultimo recurso. Mas não é, na maior parte do casos, recorre-se a uma cesariana por força da pressão da própria grávida e fora de qualquer complicação ou previsão de risco

É por isso que, nos últimos anos, as autoridades desenvolveram uma série de iniciativas e desenharam um conjunto de medidas para conseguir reduzir o numero de cesarianas. Para proteger a saúde da mãe e do recém nascido o ideal seria que a cesariana fosse apenas um ultimo recurso. Mas não é, na maior parte do casos, recorre-se a uma cesariana por força da pressão da própria grávida e fora de qualquer complicação ou previsão de risco.

Alargar às cesarianas a presença do pai ou outra pessoa como acontece nos partos normais só terá uma consequência: aumentar a pressão para a realização de cesarianas mesmo quando elas não são necessárias, sem que a mãe ou a criança tirem dessa presença qualquer benefício. Facilitar a opção pela cesariana é o que se pretende. Não há qualquer ganho nem para a qualidade nem para a humanização dos cuidados.

Só quem nunca entrou num bloco operatório, como doente ou profissional de saúde, só quem nunca foi anestesiado ou nunca viu como é, pode admitir que a presença do pai ou de qualquer outra pessoa pode ter algum reflexo positivo no bem estar da grávida ou no bom desempenho dos profissionais. Aliás, se essa presença desse algum contributo favorável, então, há muito que ele seria autorizada em todas as cirurgias e desde logo, por maioria de razão, nas pediátricas. E como sabemos, até hoje, ninguém se lembrou disso.

A presença do pai durante a cesariana não adianta nada porque a anestesia se encarrega de o tornar invisível, ausente, aos olhos da grávida, o mesmo não se podendo dizer para os profissionais para quem a presença de um estranho é sempre um problema ou, se quiserem, um potencial problema

A presença do pai durante a cesariana não adianta nada porque a anestesia se encarrega de o tornar invisível, ausente, aos olhos da grávida, o mesmo não se podendo dizer para os profissionais para quem a presença de um estranho é sempre um problema ou, se quiserem, um potencial problema. É por isso que nos blocos operatórios, durante as cirurgias, para além do doente, só entram profissionais de saúde. Não há razão para ser diferente com as cesarianas. Nada impede que o pai ou qualquer outra pessoa indicada pela mãe esteja de imediato com o recém nascido - e com a própria parturiente - mal a cirurgia termine.

Sabemos que para o capitalismo moderno tudo é uma mercadoria, tudo se pode pôr à venda. O sucesso está em saber promover e vender o produto, seja um bem ou um serviço. Esta cultura mercantil e consumista alastra, perverte todos os domínios da sociedade e adultera os nossos modos de vida e de estar. Ela é, precisamente, o contrário do humanismo que reclamamos para o SNS.

Uma cirurgia não é uma mercadoria e muito menos um espectáculo para ter público

Uma cirurgia não é uma mercadoria e muito menos um espectáculo para ter público. Deixemos as nossas coronárias, vesículas e fígados de fora dessa cultura que degrada o ser humano. Saibamos proteger a saúde, as grávidas e as crianças. Precisamente em nome da humanização dos cuidados prestados pelo SNS.

Sobre o/a autor(a)

Médico. Aderente do Bloco de Esquerda.
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