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A Frente Nacional francesa e os portugueses

A ascensão da extrema-direita num país qualquer e, a fortiori, num país tão próximo do nosso, fazendo parte do mesmo espaço (UE) e do mesmo continente, não pode deixar de interpelar, de gerar incertezas, de ser fonte de medo.

O tema deste artigo relaciona-se com uma pergunta algo anómala que é colocada com frequência, de forma direta ou indireta, nas conversas, nos debates, nos media; é também a pergunta quase instintiva de muitos dos nossos compatriotas em Portugal e de jornalistas. Todos se referem naturalmente aos portugueses imigrados em França e às consequências que o voto na Frente Nacional poderá ter, ou não ter, para eles.

A ascensão da extrema-direita num país qualquer e, a fortiori, num país tão próximo do nosso, fazendo parte do mesmo espaço (UE) e do mesmo continente, não pode deixar de interpelar, de gerar incertezas, de ser fonte de medo: e isso, independentemente do facto de uma comunidade importante de portugueses aí estar radicada, aí viver ou para aí emigrar diariamente. Que tais interpelações, incertezas e medos ganhem mais força devido à existência dessa comunidade é algo de natural.

O que há de menos natural na pergunta é a possibilidade de negação que ela contém, ou, de qualquer modo, a resposta ou meia-resposta que desde logo ela encerra e que é percetível através do tom, meio inquiridor, meio afirmativo, em que é colocada. Como se um país dominado pela extrema-direita pudesse deixar alguma das franjas da sociedade imunes, como se o projeto da extrema-direita não fosse um projeto global, que atingisse, ao mesmo tempo, tudo e todos.

Ao "enaltecer" os portugueses, ao falar numa integração bem-sucedida e nos trabalhadores exímios, está-se implicitamente a sublinhar as diferenças (positivas) com os outros, os que não estão integrados porque não o querem, os que não são trabalhadores exímios e, talvez, tão-pouco trabalhadores. Está-se implicitamente a falar no outro "muçulmano", naquele que se afirma e é visível, naquele que reivindica e se revolta contra o estatuto subalterno a que é votado

Há, na realidade, nesta velha forma de pensar que "o que atinge os outros não tem de nos atingir a nós" razões antigas, e, no caso presente, o discurso dominante veiculado de um lado e do outro dos Pirenéus.

Do lado de cá dos Pirenéus, os governantes franceses utilizam os portugueses de acordo com a conhecida divisa do dividir para reinar. Ao "enaltecer" os portugueses, ao falar numa integração bem-sucedida e nos trabalhadores exímios, está-se implicitamente a sublinhar as diferenças (positivas) com os outros, os que não estão integrados porque não o querem, os que não são trabalhadores exímios e, talvez, tão-pouco trabalhadores. Está-se implicitamente a falar no outro "muçulmano", naquele que se afirma e é visível, naquele que reivindica e se revolta contra o estatuto subalterno a que é votado.

A extrema-direita francesa mais não fez do que utilizar esta clivagem para, por seu turno, demonstrar que não é contra os imigrantes, que o projeto que acalenta não é nem racista nem xenófobo. A utilização eleitoral-mediática do restaurante popular português Chez Tonton, onde o estado-maior da Frente Nacional almoça com regularidade e onde os seus dirigentes e a sua presidente vão celebrar os resultados eleitorais é sintomática a este respeito.

A assimilação deste discurso por parte da imigração portuguesa em França também é facilitada pelo discurso dominante veiculado, por seu turno, pelos nossos governantes ou seus representantes no exterior - corpo diplomático -, políticos, media e grande parte da intelligentsia portuguesa. O estatuto de "imigrante bem integrado" cede assim o lugar, aquém como além Pirenéus, ao do "imigrante eleito".

Este imigrante - português - "bem integrado", espécie de corpo social inamovível, numa sociedade "integrante" cada vez mais desintegrada e marcada por uma crescente falta de coesão - a nível territorial, económico, social e político -, manteria o seu estatuto de "intocável" na hipótese da ascensão ao poder da Frente Nacional em França.

Pensá-lo ou tão-somente supô-lo é ignorar o próprio discurso e/ou programa/projeto desta força política, de que a preferência nacional, rebatizada prioridade nacional, é um dos grandes pilares: claramente afirmada em matéria de alojamento ou de acesso ao emprego, dois importantes vetores de sociabilidade e integração, a preferência/prioridade nacional age também a nível das transferências sociais, como o ilustra, nomeadamente, a alínea do seu programa que defende a expulsão de um estrangeiro há mais de um ano no desemprego...

Acresce dizer que, apesar de ter vindo a ser encapotado por evidentes motivos eleitoralistas, o liberalismo, ou melhor, o ultraliberalismo, é a doença congénita da extrema-direita francesa. Que ela o preconize no âmbito de fronteiras fechadas, não muda nada ao seu culto da empresa (pequena e média), ao seu horror ao Estado social, à sua aversão a um sistema fiscal equitativo. E a saída do euro, para restaurar a soberania nacional, não a impede de venerar a redução do défice e o desendividamento rápido do país, da mesma forma que a vociferação contra o estatuto do Banco Central Europeu não a inibe de defender a independência do Banco de França em relação ao poder político.

Atingindo em cheio as classes populares, o ultraliberalismo da extrema-direita não pode deixar imunes os imigrantes portugueses que maioritariamente nelas se inserem (ao instar das políticas gémeas que têm vindo a ser levadas a cabo, no âmbito de fronteiras abertas).

O saque recente (após a primeira volta das eleições regionais) de uma associação de solidariedade portuguesa na região parisiense e a inscrição na sua fachada de "Morte aos Portugueses", "Regressem ao vosso país" e "Viva a FN" teve - independentemente dos seus autores - o mérito de vir lembrar que os imigrantes portugueses não podem resistir incólumes a um projeto que designa o Outro como culpado e tem como pilar a sua exclusão

Por fim, e se bem que a ética (ou a falta dela) se possa acomodar na Europa fortaleza que "limita os imigrantes dos países terceiros para integrar os seus membros" - oferecendo, particularmente nos últimos tempos, uma imagem desoladora de sofrimento e de morte -, há que ter presente que a extrema-direita francesa preconiza abertamente o fim dos acordos de Schengen, ou seja da livre circulação dos cidadãos no espaço do mesmo nome. Numa altura em que os portugueses constituem o primeiro contingente dos novos emigrantes a afluir a França, a asserção segundo a qual "os portugueses não são visados" deveria dar que refletir.

Neste sentido, o saque recente (após a primeira volta das eleições regionais) de uma associação de solidariedade portuguesa na região parisiense e a inscrição na sua fachada de "Morte aos Portugueses", "Regressem ao vosso país" e "Viva a FN" teve - independentemente dos seus autores - o mérito de vir lembrar que os imigrantes portugueses não podem resistir incólumes a um projeto que designa o Outro como culpado e tem como pilar a sua exclusão.

Artigo publicado no “Diário de Notícias” em 6 de janeiro de 2016

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Sobre o/a autor(a)

Economista; assistente de Economia na Universidade de Paris III-Sorbonne Nouvelle; autarca na região de Paris; dirigente do Bloco de Esquerda.
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