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Quem roubou o sorriso de Marcelo

O sorriso e a habilidosa capacidade de, no tempo certo, criticar os seus foram sempre o seu melhor disfarce. Até que Marisa Matias apagou o sorriso da cara de Marcelo.

Marcelo Rebelo de Sousa é o eterno candidato à Presidência da República. Todas e todos sabíamos que um dia chegaria o seu dia… e ele também. Por isso Marcelo passou as últimas décadas a preparar-se para ser Presidente e a preparar o país para o receber de braços abertos como a um tio, a um padrinho ou alguém da família a cuja educada presença aos domingos já nos habituamos.

Marisa foi a voz de tanta gente de esquerda que exige uma alternativa coerente à direita. Outros candidatos dirão que também o poderiam ter feito, mas a verdade é que Marisa foi a única que roubou o sorriso ao Marcelo

Por isso Marcelo passou as últimas décadas a sorrir semanalmente na televisão. Perante uma derrota do Braga ou uma resposta discretamente ensaiada a uma pergunta (só) aparentemente incómoda, Marcelo exibia o mesmo sorriso.

Emitindo opinião sobre tudo e coisa nenhuma, dizendo sobre todos não se sabe bem se tudo ou o seu contrário, sorrindo Marcelo lá ia protegendo os seus amigos. O amigo Cavaco, o amigo Salgado, os amigos do PSD e os amigos do CDS tiveram em Marcelo o mais insuspeito cúmplice.

O sorriso e a habilidosa capacidade de, no tempo certo, criticar os seus foram sempre o seu melhor disfarce. E é nesse espírito que Marcelo entra na campanha, convencido de que com a direita no bolso e um sorriso nos lábios os debates entre candidatos mais não seriam do que o habitual comentário domingueiro - só muda o jornalista.

Até que Marisa Matias apagou o sorriso da cara de Marcelo.

É que ao longo de todos estes anos, o comentador Marcelo foi político. E enquanto político, o comentador Marcelo foi cúmplice da criminalização das mulheres que abortam, cúmplice dos abusos dos mercados financeiros, cúmplice dos atropelos à Constituição, cúmplice das falcatruas no BES, cúmplice das amizades de Cavaco.

Marcelo é um verdadeiro homem de mão do regime e por isso merece a confiança da direita – porque ele É a direita. Tentar esconder isso só poderia levar a problemas de coerência, como aconteceu com a sua posição sobre a constitucionalidade dos cortes salariais que foi variando de acordo com a cor governativa.

No debate com Marcelo, Marisa Matias confrontou-o com isto e muito mais. Estragou-lhe o disfarce, deixou claro que a defesa de um povo e dos seus direitos é coisa para quem o praticou toda a sua vida política e não um disfarce sorridente de quem sempre esteve do outro lado: do lado dos interesses, das elites e dos negócios.

Mais uma vez, a Marisa foi a voz de tanta gente de esquerda que exige uma alternativa coerente à direita. Outros candidatos dirão que também o poderiam ter feito, mas a verdade é que Marisa foi a única que roubou o sorriso ao Marcelo.

Sobre o/a autor(a)

Deputada e dirigente do Bloco de Esquerda, licenciada em relações internacionais.
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