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Made in television

Levou anos a preparar, domingo após domingo. Disse o que queria e o que lhe disseram para dizer. Não foi apenas um projecto pessoal que ali se teceu. Foi obreiro de encomendas várias.

Quando foi necessário a Passos Coelho e a Portas a justificação do saqueio, ele justificou. Quando foi necessário branquear crimes e desvarios, ele branqueou. Quando foi necessário enaltecer Cavaco, mesmo naqueles transes de indigência intelectual, ele enalteceu. Nas refregas partidárias tomou sempre partido, travestido de sonso e misericordioso. No referendo do aborto foi cruelmente piedoso. Não, não queria a prisão das mulheres. Só queria que a lei as continuasse a mandar para a prisão. Não há pior traço de carácter para quem quer ser estadista do que a sonsice a estalar de compaixão. Chica espertice que se veste de complacência indulgente.

Não há pior traço de carácter para quem quer ser estadista do que a sonsice a estalar de compaixão. Chica espertice que se veste de complacência indulgente

Quando saiu da TVI foi um festão. De rastos, os comentadores, entrevistadores, pares obedientes e deslumbrados pelas sucessivas performances dominicais, louvaram o senhor.

Há quase uma suave, bem-disposta e enternecedora boçalidade naquilo tudo.

Está-se a ver que, se for eleito, será sempre um aliado dos que agora se foram embora. Esses disseram-nos todos os dias, todos os longos dias que durou o seu longo mandato, que se não fizéssemos o que nos mandavam fazer, cairiam sobre nós as sete pragas do Egipto. Muito gafanhoto, muita peste, muita fome e muita morte, toda uma maldição, cairia sobre nós. O professor, sempre simpático e empático, comunicador superlativo, dizia que sim senhor. Sorria, perorava, pigarreava, e vá de acrescentar mais pragas às pragas já previstas. Até estrebuchava de aflição. É claro que era uma aflição cordial, as palavras bem pesadas, tudo na medida certa.

Um opinador profissional. Fala de tudo como se tudo fosse pouco para tanto saber. Pilhas de livros integravam um cenário semeado de intimidade. O professor era um tipo próximo, familiar, amigável, mesmo para os que sabiam de antemão as pantominices que debitava. Pantominices, patranhas, embustes, mas tudo em tom respeitoso, encantador, de uma candura que comovia.

Um produto bem esgalhado. Uma construção bem dimensionada. De fachada, mas bem ornamentada. Um sedutor, do alto do seu pedestal televisivo. Chamam-lhe criador de factos políticos, recordam-lhe a Vichyssoise, apontam-lhe a falta de idoneidade. A tudo responde com amável bonomia, como se de traquinice inconsequente se tratasse.

Nasceu no centro do grémio do fascismo. Do fascismo português. É claro que não teve culpa de nascer no meio em que nasceu. É claro. Mas o passado não se forja apenas no nascimento. O passado é feito de muito caminho. O dele pesa-lhe neste preciso momento, nesta específica conjuntura. O passado. Enquanto colegas seus faziam greve, ele furava a greve. Enquanto a juventude era presa, ele escrevia ao outro Marcelo, vassalo e afim, colaborante, transmitindo informações, assegurando fidelidades. Foi sempre um dos deles, da ditadura, um delfim, mimado, predestinado para voos altíssimos.

Com notável plasticidade vive bem na democracia. É aliás do tipo de pessoa que vive bem em qualquer regime. Maleável e flexível, entre o chiste elegante e a cilada retórica, entre a amizade jurada e a traição prazenteira, aí está um meteoro, prontinho para o cargo.

Só que os meteoros, com as suas toneladas de luz brilhante a inundar os céus, deflagram na primeira esquina do universo.

Não chegam a tocar a superfície da Terra. Formam apenas um rasto de luz no firmamento. E depois…

Sobre o/a autor(a)

Advogada, dirigente do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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