Política de terra queimada

porIsabel Pires

25 de December 2015 - 17:47
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As posições que a direita neste país tem sobre os problemas sistémicos da banca fazem lembrar a política da terra queimada.

Em tempos idos, a conquista de terras pela força era comum sempre que reino ou um senhor pretendia anexar territórios próximos. Isto porque ter mais terra era significado de poder militar, político e económico. Não raras vezes, quem habitava estes territórios não queria ser anexado ou conquistado e, portanto, tinha poucas opções: ou lutava (regra geral, com meios e militares em pouco número face a exércitos maiores) para ficar com a sua terra; ou rendia-se; ou queimavam tudo o que pudesse ser valioso antes que o invasor chegasse. A chamada política de terra queimada.

PSD e CDS deixaram um país devastado, com perspetivas de recuperação muito difíceis e ainda deixaram mais um banco para falir mesmo após a sua saída do governo. É exatamente política de terra queimada

E as posições que a direita neste país tem sobre os problemas sistémicos da banca fazem lembrar esse tipo de opção, a política da terra queimada. Quem fala em terra queimada fala num Portugal devastado depois de 4 anos de governação de direita, governação mais troikista do que a troika, ideologicamente cega e que sempre beneficiou os mesmos, o grande capital.

E hoje estão cada vez mais à vista os estragos causados, a cada dia que passa se descobrem mais. O sistema nacional de saúde está numa situação calamitosa: falta de médicos de família para milhares de portugueses, tempos de espera nas urgências inaceitáveis, falta de meios para manutenção de algumas especialidades em horários noturnos ou fins-de-semana. O acesso à saúde já não é visto como um direito, e o acesso à mesma está cada vez mais dependente da situação financeira. Morrem pessoas nas filas de espera e também por falta de médicos.

A educação foi gradualmente sendo destruída, tanto pela elitização do acesso, como pela degradação das condições de trabalho para professores. Fecharam escolas, outras tantas funcionam (ainda) em contentores, implementaram exames que em nada ajudam, humilharam os professores e professoras.

O mundo do trabalho sofreu reconfigurações de tal ordem que já resta muito pouco para salvar no que toca a contratação coletiva e deixaram um mar de precariedade que muito terá que ser feito para o resolver.

Mas não haverá nada tão gritante desta política de terra queimada como o caso do Banif. Enquanto destruíram o Estado Social e o país, salvaram bancos todos os anos. E eis que surge mais um, numa altura em que um novo governo acaba de entrar em funções, resultado de uma nova configuração da representação política no Parlamento português. Desde 2013 que foi sendo injetado dinheiro público no Banif, mas ainda assim chegamos a 2015 e a solução encontrada em poucos dias foi a venda da parte boa do banco. O custo para o contribuinte pode chegar a quase 3000 milhões de euros.

Mais um banco salvo enquanto o país grita por ajuda porque há serviços públicos que entraram em ponto de rutura. E se há coisa que toda a gente percebe é que a responsabilidade vem da governação ideologicamente cega dos últimos 4 anos; governantes esses que além de serem mais troikistas que a troika, pelos vistos sofrem de amnésia porque, pelos vistos, ninguém tem responsabilidades neste caso do Banif.

Ninguém assume responsabilidades enquanto a terra pega fogo; PSD e CDS deixaram um país devastado, com perspetivas de recuperação muito difíceis e ainda deixaram mais um banco para falir mesmo após a sua saída do governo. É exatamente política de terra queimada: destruíram tudo para que os próximos não tivessem oportunidade de governar. Mas esse trabalho tem que ser feito por mais dificuldades que PSD e CDS tenham deixado pelo caminho.

Isabel Pires
Sobre o/a autor(a)

Isabel Pires

Dirigente do Bloco de Esquerda. Licenciada em Ciências Políticas e Relações Internacionais e mestranda em Ciências Políticas
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