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Rankings: orgulho e preconceito

Aquilo que preocupa e envergonha o país, orgulha a direita. Só assim se explica que CDS e PSD estejam orgulhosos do tal ““ranking”” que foi divulgado no final de 2015.

Vamos ver o que esse “ranking” nos mostra, os factos visíveis a olho nu.

Primeiro facto. O top do “ranking”, 24 em 25, é ocupado por escolas privadas. Ou seja, os filhos e filhas das famílias ricas têm acesso a melhores condições de educação do que os filhos das famílias pobres.

Segundo facto. O contexto social das escolas não conta para o “ranking”. Por uma razão simples, os privados selecionam os alunos enquanto as escolas públicas garantem educação a todos.

Façamos, a este pretexto, um exercício de imaginação: colocar os alunos do Colégio Nossa Senhora do Rosário (primeiro lugar nos exames do 6º ano) na Escola Básica de Miradouro de Alfazina do Monte da Caparica (último lugar do “ranking”), ou o contrário. E veríamos como não se pode comparar o que não é comparável.

O tal “ranking” mostra-nos isso sem ser preciso recorrer à imaginação: dois colégios dirigidos por jesuítas, o colégio S. João de Brito e o Colégio de Imaculada Conceição, os dois com gestão igual têm resultados completamente diferentes. Porquê? Porque um deles tem contrato de associação com o Governo e por isso é obrigado a aceitar os alunos e alunas de qualquer família e com isso fica prejudicado no “ranking”. O outro, totalmente privado, seleciona os seus alunos.

Terceiro facto. O ensino artístico, ao contrário da obsessão pela matemática e português, melhora as aprendizagens.

Exposto o que se vê a olho nu, vamos ao que o “ranking” só mostra a quem quer ver:

Primeiro facto escondido. Em 3 anos houve 1333 milhões de corte no ensino público enquanto se transferiram 160 milhões para o ensino privado.

Segundo facto escondido. A turma do 7º A da Escola Secundária da Sé, na Guarda, tem 26 alunos, 32 na disciplina de espanhol, dos quais 4 tem necessidades educativas especiais. No privado, os alunos têm acompanhamento personalizado.

Terceiro facto escondido. No privado é permitido aos professores acompanhar os alunos no seu percurso escolar ao longo de anos. No público há demasiados caixeiros viajantes a mudar de escola todos os anos.

Quarto facto escondido. No privado ninguém tem aulas em contentores.

Quinto facto escondido. No privado, os professores de apoio não são um prémio para as escolas que já têm bons resultados nos exames, mas um reforço para quem dele precisa.

O cenário do privado parece ser muito mais propicio a bons resultados. Mas há um problema. No privado só entra quem o privado quer e pode pagar. No público entram todos.

Se este “ranking” vale para alguma coisa, não é para dizer o que se passa nas escolas. O “ranking” não nos diz, por exemplo, que os alunos do primeiro ciclo só começam a aprender estudo do meio depois de acabados os exames. Também não mostra o que o próprio Presidente do Instituto de Avaliação Educativa admitiu que foram feitas alterações aos critérios de avaliação porque os resultados dos primeiros exames não foram os esperados pelos Cratistas para justificar a sua vantagem pedagógica.

A direita fez e faz um grande espetáculo em torno da existência dos exames e das suas vantagens. Mas o rei vai nu. O “ranking” feito a partir das notas dos exames só serve para oferecer publicidade gratuita aos colégios privados. Mas enquanto perdiam tempo na propaganda, muitos alunos do Barreiro ficaram sem alunas durante semanas porque o teto da escola caiu.

Vamos às duas coisas que o “ranking” deixa claro.

Primeira evidência. Estão a destruir a escola pública.

Segunda evidência. Este “ranking” põe a nu as causas de outro “ranking”: aquele que coloca Portugal no top 5 das desigualdades sociais na Europa.

De certeza que é mais fácil ficar bem no “ranking” sendo-se um aluno do S. João de Brito do que da Escola da Baixa da Banheira. O problema é que os alunos da Baixa da Banheira têm tanto direito à educação como aqueles que pagam pelo menos 500€ para andar no S. João de Brito.

A diferença é que nos queremos uma escola igual para todos e direita dos “rankings” e dos exames quer uma educação de primeira e uma educação de segunda. Nos exames, como nos “rankings”, havia na direita tanto de orgulho quanto de preconceito.

Sobre o/a autor(a)

Deputada e dirigente do Bloco de Esquerda, licenciada em relações internacionais.
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