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Se perdemos tanto, alguém ganhou no Banif

Na realidade, a tramoia já vem de longe e foi só por razões políticas que a questão do Banif foi escondida, nos termos de um acordo ou de uma concessão do Governador do Banco de Portugal às conveniências eleitorais de Passos Coelho. Por Francisco Louçã
Foi só por razões políticas que a questão do Banif foi escondida, nos termos de um acordo ou de uma concessão do Governador do Banco de Portugal às conveniências eleitorais de Passos Coelho - Foto de Paulete Matos

Ficámos este fim de semana pelo menos dois mil milhões de euros mais pobres, apesar de o comunicado seráfico do Banco de Portugal se ter esforçado por apresentar tudo como coisa normal. O Primeiro-ministro assumiu a perda. E o Santander ficou mais rico, bem como eventualmente os beneficiários de alguns jogos bancários dos últimos dias ou semanas no Banif.

Pode ainda acrescentar-se que, na realidade, a tramoia já vem de longe e que foi só por razões políticas que a questão do Banif foi escondida, nos termos de um acordo ou de uma concessão do Governador do Banco de Portugal às conveniências eleitorais de Passos Coelho.

Os erros acumularam-se durante todo o ano, apesar dos claros sinais de alarme: uma extravagante tentativa de receber como acionista a família reinante da Guiné Equatorial, o incumprimento da dívida para com o Estado desde janeiro e, finalmente, a evidência da vulnerabilidade do Banif nos últimos meses, com oito planos de reestruturação do banco rejeitados pelos organismos europeus.

A resposta das autoridades portuguesas foi nenhuma. A administração devia ter sido demitida e o Estado devia ter tomado conta do banco (sendo o acionista a 60%, a coisa seria trivial), mas preferiu-se a inação e o apodrecimento. Tomé e Luís Amado continuaram tranquilamente a explicar ao país o que esperavam que fizéssemos por eles.

Na última semana, tudo piorou. Alguém lançou o boato da liquidação do banco e desencadeou assim a corrida aos depósitos. Se não foi um comprador pretendendo tornar irreversível a pressão sobre os representantes do Estado, foi muito bem imitado. Entretanto, a crise exigiu centenas de milhões de euros de empréstimo de liquidez e o prazo para uma solução não podia ser adiado. Acresce finalmente que, por razões enigmáticas, a CMVM só no fim da semana suspendeu as ações em Bolsa.

Um ano de erros, uma semana de catástrofe.

Vieira Pereira, um cronista conservador e certamente próximo dos pontos de vista de quem tem governado Portugal, escrevia-o com toda a propriedade e algum pesar: a banca é um problema sistémico. Ou nos livramos dele ou continuamos a pagar.

Mas, mesmo esperando medidas de fundo para resolver este problema sistémico de todo o sistema bancário, há perguntas imediatas que esperam resposta.

A primeira, o Governador do Banco de Portugal, depois do BES e do Banif, não tira nenhuma conclusão sobre a degradação da confiança na banca, sob a sua liderança e nestes dois casos com a sua responsabilidade direta?

A segunda, o governo, se entende que é necessário uma nova forma de supervisão e uma nova instituição capaz de proceder à resolução de bancos em risco, que passos vai dar nesse sentido?

A terceira, queremos mesmo submeter Portugal a um regime de resolução que, nos termos da União Bancária, imporá forçosamente a desconfiança permanente dos depositantes?

Artigo publicado em blogues.publico.pt a 21 de dezembro de 2015

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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