You are here

Estado Islâmico: a mensagem da força

Controlam um protoestado do tamanho do Reino Unido; demonstram uma invulgar capacidade de realizar atentados terroristas em diferentes países e continentes; pretendem passar uma imagem de força diante de tantos agressores. A verdade é que um ano e meio depois de proclamarem um califado, atacados pelas mais poderosas forças aéreas do mundo, a sua capacidade não diminuiu.
A temida bandeira do Daesh: ataques reforçam a propaganda sobre o povo do califado. Foto domínio público
A temida bandeira do Daesh: ataques reforçam a propaganda sobre o povo do califado. Foto domínio público

Os atentados de Paris de novembro deste ano vieram demonstrar, de forma brutal, o fracasso da “Guerra contra o Terrorismo”, declarada há 14 anos por George W. Bush. Foi em 16 de setembro de 2001 que o presidente dos EUA cunhou o termo que seria repetido tantas vezes no futuro, identificando a Al Qaeda como o inimigo a abater, mas não só: “A guerra não vai terminar até que todos os grupos terroristas de âmbito global tenham sido localizados, detidos e derrotados”, afirmou então.

Nestes catorze anos houve por todo o Médio Oriente operações militares de invasão, bombardeios aéreos, mudanças de regime forçadas em nome da “democracia”. Mas a então aparentemente todo-poderosa Al-Qaeda parece hoje insignificante diante do Daesh, ou Estado Islâmico.

Trata-se de organizações diferentes. A de Osama bin Laden retirava a sua força da estrutura de pequenas células horizontais, da sua pouca centralização e do seu caráter difuso para atacar onde menos se esperava. O Daesh é o oposto: controla um autodenominado Estado que abrange um território calculado em 210 mil quilómetros quadrados, semelhante ao do Reino Unido, englobando áreas da Síria e do Iraque; proclamou um califado com sede em Raqqa (Síria) e um califa, Awwad Ibrahim Ali al-Badri al-Samarrai, que adotou o nome de Abu Bakr al-Baghdadi. (Abu Bakr foi um dos companheiros de Maomé e o primeiro califa do Islão, entre 632 e 634 d.C.).

O Estado tem um exército bem estruturado, com uma forte presença dos antigos oficiais das Forças Armadas de Saddam Hussein, e que usa um arsenal bélico moderno capturado ao exército iraquiano. Financia-se através de doações vindas de milionários sauditas, do contrabando do petróleo que extrai do seu território, e da cobrança de impostos – não esqueçamos que o califado inclui cidades como Mossul, a segunda maior do Iraque, com 1,8 milhão de habitantes. O regime político é brutal, seguindo a interpretação mais literal da sharia, a lei islâmica, com a aplicação de sentenças arbitrárias e chocantemente violentas que incluem decapitações ou a execução de pessoas atirando-as do alto de edifícios.

Vigora um regime brutal, seguindo a interpretação mais literal da sharia, a lei islâmica, com a aplicação de sentenças arbitrárias e chocantemente violentas.

Crescimento e afirmação do Daesh

Perante estas práticas que nada devem aos regimes fascistas, como explicar o crescimento fulgurante do Daesh? Fundado na Jordânia, em 1999, o grupo teve como primeiro líder Abu Musab al-Zarqawi e desenvolveu-se no Iraque, na resistência à invasão dos Estados Unidos e aliados. A morte de al-Zarqawi fez o grupo entrar em crise, até a reorganização feita por Al-Baghdadi. No Iraque governado por um xiita que marginalizava a comunidade sunita, o Estado Islâmico apareceu como uma esperança para muitos sunitas, recrutando com facilidade os oficiais do antigo exército iraquiano, que puseram de pé uma força bélica de grande eficácia. Esta ficou demonstrada na ofensiva militar de junho de 2014 que pôs em debandada o Exército do Iraque – a força armada cuja formação tantos anos e dólares custara aos militares e ao governo dos EUA. Dezenas de cidades foram conquistadas em semanas, entre elas as estratégicas Raqqa na Síria e Mossul no Iraque. As tropas do Daesh foram acolhidas pela população sunita, farta de sofrer a discriminação do governo xiita e que calculou ser difícil ficar pior sob o novo regime.

Atacado pelas forças aéreas mais poderosas do mundo

Um ano e meio depois, o protoestado do Daesh é atacado pelas forças aéreas mais poderosas do planeta – Estados Unidos, Rússia, França, Reino Unido, entre outras – mas continua a demonstrar uma enorme capacidade de recrutar novos adeptos em todo o mundo – incluindo em Portugal – e uma aptidão inédita para realizar atentados terroristas quase simultaneamente em diferentes países e até continentes. O atentado de 13 de novembro em Paris foi precedido por um ataque contra uma base do Hezbollah no Líbano, no dia anterior, que provocou 40 mortes, e outro, no dia 31 de outubro, que derrubou um avião russo no Egito, matando 244 pessoas. Antes, no dia 26 de junho, um ataque a um hotel em Sousse, Tunísia, matara 38 pessoas. Depois do massacre de Paris, ainda viria a ocorrer uma dupla agressão na mesquita de Bagdade, a 21 de novembro, matando seis pessoas e ferindo 19; e um ataque suicida na Tunísia, no dia 25 de novembro, que matou 12 militares da Guarda Presidencial e feriu 20.

O segredo da sobrevivência e até consolidação do Daesh são os apoios estratégicos, militares e financeiros que recebe

O segredo da sobrevivência e até consolidação do Daesh são os apoios estratégicos, militares e financeiros que recebe – não assumidamente – de países como a Arábia Saudita, cujo sunismo wahhabita tem grande identificação com a interpretação da sharia feita pelo califado; como o governo turco, que vê no Daesh um aliado na luta contra os curdos; e até do governo de Israel, que tem o Irão xiita como principal inimigo na região e pragmaticamente considera que os inimigos dos seus inimigos, seus amigos são.

A intenção explícita de provocar

A reação do governo de François Hollande e das potências ocidentais diante dos atentados de Paris voltou a ser a dos tambores de guerra: ataques aéreos apresentados como devastadores e que mais uma vez estão a demonstrar que a supremacia aérea não é suficiente para derrotar exércitos bem organizados. Conseguem, isso sim, provocar a morte de milhares de civis inocentes, os chamados efeitos colaterais, que reforçam a propaganda do califado contra as “cruzadas” ocidentais.

Em vez de cortar as fontes de financiamento do califado, Washington, Paris, Londres e até Moscovo voltam a falar de ofensivas militares terrestres. Será que a situação atual do Afeganistão invadido em 2001 não lhes ensina nada quanto aos previsíveis resultados? E o Iraque atual, invadido em 2003 e “reconquistado” parcialmente pelo Estado Islâmico não tem ensinamentos a dar?

Bombardeamentos são armadilha

“Bombardeamentos contra o Estado Islâmico são uma armadilha. O vencedor desta guerra não será o lado com as armas mais novas, mais caras, mais sofisticadas, mas o lado que conseguir ter o povo do seu lado", defendeu recentemente Nicolas Hénin, um jornalista francês que durante 10 meses foi refém do Daesh. Para ele, os bombardeamentos "estão a confirmar a propaganda do Estado Islâmico” e a mensagem que querem propagar à população que vive no território do califado: “'Nós somos a única organização forte, capaz de proteger-vos, porque o resto do mundo está contra vocês. Estamos aqui, podemos proteger-vos, porque somos fortes'”.  

(...)

Resto dossier

10 temas de 2015

2015 foi um ano marcado por turbulências várias, por viragens importantes, num tempo de estagnação do capitalismo, de austeridade imposta aos povos, de grande instabilidade política e social e de esperança na mudança. Escolhemos para este dossier 10 temas nacionais e internacionais, com a consciência de que muitos faltam neste ano cheio de acontecimentos significativos.

Espanha: 20D - Final da primeira parte

O 20D mostra um bipartidarismo ferido e quase afundado. Mas o que vem a seguir está ainda em disputa. Continuismo, auto-reforma e rutura são três horizontes que se confrontam entre si sem que nenhum deles tenha ganhado o desenlace a seu favor. Por Josep Maria Antentas

Milhares de refugiados reféns da hipocrisia da UE

Se há imagens que ao longo deste ano ficaram na memória de milhões de pessoas, elas estão relacionadas com o drama dos refugiados que, para fugir da guerra, das perseguições e da miséria extrema, tentaram alcançar a Europa em embarcações sem um mínimo de condições de segurança.

Grécia: entre a espada do Euro e a parede da austeridade

A Grécia iniciou 2015 inspirando-nos com a ideia de que o possível depende da vontade do povo. Com o futuro nas mãos, o novo governo de esquerda iniciou as mais duras negociações com os credores e a Europa autoritária tornou claro que a democracia é o que menos conta. Depois de um terceiro pacote de austeridade e com um segundo governo Syriza, a Grécia continua a negociar o seu destino.

A esperança que renasceu nas eleições de outubro

Os resultados das eleições de outubro permitiram pela primeira vez na história da democracia, estabelecer um acordo parlamentar entre o PS, Bloco, PCP e PEV para recuperar direitos e retomar o crescimento.

2016: O ano do fim das privatizações?

Em 2015, o governo PSD/CDS acelerou os processos de alienação de setores estratégicos, enfrentando a contestação de trabalhadores e movimentos de cidadãos e a oposição frontal do Bloco. O acordo à esquerda prevê a anulação de privatizações em curso e o compromisso de não se iniciarem novas concessões e privatizações de empresas públicas.

Do BES ao Banif

O ano de 2015 continuou a ser marcado pelas crises no sistema financeiro. A comissão parlamentar de inquérito ao BES, os protestos dos lesados do BES, o escândalo do Banif e o problema do Novo Banco foram tema em 2015. Lições, medidas sobre o sistema financeiro e a supervisão continuam a ser tema para 2016.

A temida bandeira do Daesh: ataques reforçam a propaganda sobre o povo do califado. Foto domínio público

Estado Islâmico: a mensagem da força

Controlam um protoestado do tamanho do Reino Unido; demonstram uma invulgar capacidade de realizar atentados terroristas em diferentes países e continentes; pretendem passar uma imagem de força diante de tantos agressores. A verdade é que um ano e meio depois de proclamarem um califado, atacados pelas mais poderosas forças aéreas do mundo, a sua capacidade não diminuiu.  

Rafael Correa, Evo Morales, Néstor Kirchner, Cristina Fernández, Luiz Inácio Lula da Silva, Nicanor Duarte, e Hugo Chávez na cerimónia de assinatura da carta fundadora do Banco do Sul. Foto de Presidencia de la Nación Argentina. Licensed under CC BY 2.0 via Commons

América Latina: O esgotamento de um modelo

Os sintomas do esgotamento de um modelo são a profunda crise política que atinge, no Brasil, Dilma Rousseff, o Partido dos Trabalhadores (PT) e os seus aliados parlamentares, a derrota da aliança entre kichneristas e alguns peronistas na Argentina, e o descalabro de Nicolás Maduro e do seu Partido Socialista Unido de Venezuela. Por Eduardo Gudynas, Brecha.

2015, o ano em que mudou o clima das Alterações Climáticas

2015 foi o ano em que as alterações climáticas definitivamente passaram a fazer parte da agenda pública e política. Mas o desfasamento entre o grande agravamento nas condições gerais do ambiente e a resposta social e política aos mesmos é ainda muito grande.

Comparação entre a Terra e Marte. Foto de NASA's Marshall Space Flight Center:Flickr.jpg

Água líquida em Marte pode indicar presença de vida no planeta

Em 2015 descobriu-se que a superfície de Marte, já foi coberta por um oceano, e que tem atualmente água líquida, num ciclo sazonal. Estas descobertas podem ter implicações para existência de vida no planeta.