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O lápis laranja

O PSD tem um problema: o que separa Pacheco Pereira da opinião de Marcelo Rebelo de Sousa sobre o falecido Governo de Passos/Portas é o facto de Marcelo ser o candidato presidencial que o PSD apoia.

A antiga assinatura censória do lápis azul mudou de cor. Com a pouca-vergonha ao rubro e com o sorriso amarelo, o PSD mistura as cores, substituindo o azul por laranja. Agora, a censura a quem o diz. Melhor dizendo, a quem vai dizer. A gota de água de Pacheco Pereira no seu partido parece ser algo que poderá porventura vir a ser dito numa acção da candidatura presidencial de Marisa Matias. Pela antecipação do futuro e pelo passado, novas vontades mas velhos vícios. Campeão das expulsões por delito de opinião ou incumprimento estatutário, depois de cerca de 400 militantes expulsos após as autárquicas de 2013, com a memória do seu ex-primeiro ministro Cavaco Silva a promover, em 1986, a expulsão de dezenas de militantes pelo apoio a Mário Soares contra Freitas do Amaral, o PSD dos nossos dias faz jus à sua honra sem nunca fazer a pergunta essencial: o que levará alguém com pensamento, história e passado a não sair pelo próprio pé do seu partido, insistindo nas críticas ao actual rumo e liderança? Uma das faces mais violentas da disciplina partidária é assistir à destruição da génese de um projecto político que se julgava seu e de tantos, por acções de assalto selvagens e gestos cirúrgicos de precisão neoliberal. Pacheco Pereira tem sido disciplinadíssimo.

Em boa verdade, o PSD tem um problema: o que separa Pacheco Pereira da opinião de Marcelo Rebelo de Sousa sobre o falecido Governo de Passos/Portas é o facto de Marcelo ser o candidato presidencial que o PSD apoia. Nada mais. Mas é esse mesmo candidato que a PàF-ainda-no-activo-na-oposição apoiará nos seus Conselhos Nacionais simultâneos de amanhã. Um aparência de posição de força e de afago ao crítico candidato que se auto-impôs.

Os dias de hoje e a liberdade de dizer diverso. Tenho a disciplina partidária em muito boa conta em matérias fundamentais (programas de Governo, Orçamentos do Estado ou moções de apoio ou rejeição). Tenho sérias dúvidas de que uma candidatura presidencial, pela sua natureza pessoal de proposição, possa constar dos possíveis crimes contra a disciplina partidária. Duarte Marques, principal crítico moral de Pacheco Pereira, fala claramente "acima das suas possibilidades", tal e qual como julgou a vida dos portugueses durante anos. Estranho mundo de sombras, este, em que se podem traçar tantos paralelismos entre a atitude do PSD com Pacheco Pereira e a atitude do MCTP/MRPP com Garcia Pereira. Alto e sobressalto! Pacheco Pereira enquanto denominador comum... Mas não. Estamos mesmo no presente envenenado do verbo.

Artigo publicado no “Jornal de Notícias” em 9 de dezembro de 2015

Sobre o/a autor(a)

Músico e jurista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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