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Terroristas

A ambiguidade da palavra “terrorismo” é notória. E não é por acaso que assim acontece, chegámos aqui depois de um longo caminho.

O massacre de San Bernardino, na Califórnia, foi ato terrorista, diz o FBI, apesar da aparente discordância da Casa Branca.

Mas se não tivesse sido reclamado pelo Daesh, não era terrorismo?

O facínora que esfaqueou três pessoas no Metro de Londres é um terrorista. Porquê? Porque gritou qualquer coisa sobre a Síria, não se sabe bem o quê. Se não tivesse gritado a palavra Síria, seria então o quê?

A ambiguidade da palavra “terrorismo” é notória. E não é por acaso que assim acontece, chegámos aqui depois de um longo caminho.

A palavra está amaldiçoada. A França de De Gaulle chamava terroristas aos nacionalistas argelinos que pegaram em armas pela independência do seu país e hoje os líderes dessa revolta armada são recebidos em Paris porque são os representantes do Estado que criaram. Portugal de Salazar chamava terroristas a Amílcar Cabral ou a Agostinho Neto, mas o Portugal democrático veio a reconhecer a sua luta como legítima e a aceitar a independência pela qual lutaram contra o exército português. Muito recentemente, um concerto de países, dos Estados Unidos à URSS e a Cuba, considerava a Fretilin um movimento terrorista e condenava a luta pela independência de Timor Leste, pois apoiava o regime indonésio. Agora estes governos sentam-se com os representantes do novo país, que passaram a ser respeitáveis. O regime do apartheid chamava terroristas aos guerrilheiros do ANC e Nelson Mandela esteve 27 anos presos por essa acusação. O Reino Unido considerava o IRA como terrorista, depois fez um acordo com ele e o partido que representa os seus pontos de vista pode ganhar as eleições na Irlanda em 2016. A Alemanha durante a Segunda Guerra condenava como “terroristas” os resistentes ao seu exército e executava-os sem julgamento, muitos dos sobreviventes foram os governantes do pós-guerra. “Terrorismo” era a designação política que procurava condenar e isolar estes movimentos militares.

Se já não bastasse a transfiguração da noção, o episódio trágico de San Bernardino revela ainda uma outra dimensão da palavra “terrorismo”, uma das piores, o cinismo. A mortandade, diz o FBI, é terrorismo porque haveria uma motivação islâmica dos criminosos, obedecendo ao Daesh.

Mas se fossem criminosos cristãos, não seria “terrorismo”? Se fosse uma qualquer seita alucinada, ou um tresloucado, como em tantas outras mortandades recentes nos Estados Unidos, não seria “terrorismo”? A relativização da vida humana por considerações políticas e comunicacionais pode chocar, mas só surpreende quem não lê as notícias sobre esta longa série de tragédias.

O massacre de 76 pessoas por Anders Breivik em Oslo, em 2011, não foi um ato de terrorismo, por ter sido praticado por um cristão e supremacista branco? Ou o massacre de San Bernardino deixaria de ser terrorismo se fosse simplesmente provocado por uma milícia ou por outros desesperados? Uns fazem parte do ataque à nossa civilização e outros são extravagâncias da nossa civilização, é isso que distingue o uso da palavra “terrorismo”?

Acresce ainda que os terroristas de San Bernardino poderiam ter comprado legalmente as suas armas numa loja nos Estados Unidos. Os que em nome da defesa individual reclamam o livre acesso às armas estão agora confrontados com o facto evidente de estas armas poderem ser usadas para os matar (ou para matar outras pessoas), o que aliás já aconteceu com todos os rituais de massacres em escolas ou noutros episódios no país. É para isso mesmo que servem as armas, ou que podem servir, dirá o mais desprevenido. O terrorismo fabricado em casa e com armas adquiridas no mercado deixa de ser terrorismo?

A palavra “terrorismo” é como essas armas. O problema não é sempre os que inclui (mas lembre-se que já incluiu muitos que hoje são respeitados como os grandes estadistas do século, como o recentemente falecido Nelson Mandela), mas decerto os que exclui. Usada segundo as circunstâncias, tem-se tornado instrumental, protegendo criminosos. A palavra manipulada tem sido uma das bandeiras do relativismo.

Artigo publicado em blogues.publico.pt a 7 de dezembro de 2015

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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