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A luta pela sobrevivência no campo de refugiados de Edomeni

Na madrugada de 3 de Dezembro visitei o campo de Edomeni. A primeira imagem foi avassaladora.

Após a Macedónia ter decidido fechar parcialmente as suas fronteiras no dia 18 de novembro, a situação em Edomeni continua a agravar-se de dia para dia. Apenas aceita a passagem das suas fronteiras dos refugiados que a Alemanha considera como tal, ou seja, apenas os sírios, os afegãos e os iraquianos. Os restantes refugiados veem-se impedidos de passar. Esta nova política está a criar uma situação insustentável que irá explodir nos próximos dias.

A situação em Edomeni continua a agravar-se de dia para dia. A Macedónia apenas aceita a passagem da fronteira aos refugiados que a Alemanha considera como tal, ou seja, apenas os sírios, os afegãos e os iraquianos

Na madrugada de 3 de dezembro visitei o campo de Edomeni. A primeira imagem do campo foi avassaladora: 32 autocarros estavam estacionados em linha para poderem "largar" os passageiros para depois voltarem a Atenas para irem “buscar” mais. Depois de 6 horas de viagem, os refugiados têm horas de espera pela frente para poderem sair dos autocarros e se instalarem no campo, que já poucas ou nenhumas condições tem para albergar milhares de pessoas. A paisagem é dominada por tendas de campismo ou improvisadas, onde famílias inteiras, e com muitos bebés e crianças, se tentam abrigar contra uma temperatura de 2° graus celsius e um vento que se faz sentir nos ossos.

O ambiente estava tenso. As organizações não governamentais e os coletivos de solidariedade já não têm capacidade para minimizar as carências dos refugiados. A roupa, a comida e os abrigos não chegam para todos, nunca chegaram. A luta pela sobrevivência tomou conta do campo. Os voluntários apenas podem fazer distribuições de comida se tiverem grandes quantidades para distribuir, caso contrário ocorrem episódios de violência entre refugiados, e se um voluntário se intrometer corre algum risco. O desespero é o sentimento predominante no campo.

Para atenuarem a lotação do campo principal, as ONGs e os coletivos de solidariedade decidiram criar dois campos secundários de menor dimensão. Rapidamente ficaram cheios. Não há espaço para tanta gente. Edomeni tem mais de 6 mil pessoas bloqueadas, sendo que 2.500 são refugiados de nacionalidades proibidas de passar, mas continuam sempre a chegar mais e mais em expressos com capacidade para 50 pessoas cada. Chegam dia e noite, a toda a hora.

A reação de sobrevivência e de desespero é causada pelas políticas da UE e dos seus Estados-membros. A culpa não é dos iranianos, mas dos líderes políticos europeus e das suas políticas

Após a Macedónia ter decidido construir um muro e fechar parcialmente a passagem a todas as pessoas que não provenham da Síria, Afeganistão e Iraque, os restantes refugiados começaram a desesperar. Os iranianos (com alguns marroquinos e bangladeshianos) decidiram organizar-se e fechar por si mesmos a fronteira do lado grego, barricando-se, ao mesmo tempo que ocuparam com tendas a linha de comboio que faz a ligação entre a Grécia e a Macedónia. São ações políticas orientadas por uma reivindicação muito concreta: abram as fronteiras e deixem-nos passar. Mas se não passam, então os outros refugiados também não. Esta é uma reação de sobrevivência e de desespero causada pelas políticas da UE e dos seus Estados-membros. A culpa não é dos iranianos, mas dos líderes políticos europeus e das suas políticas.

A explosão de um sério conflito está para breve. Não é se, mas quando. A abertura total das fronteiras pelos Estados, mas em primeiro lugar pela Macedónia, é a primeira medida a se tomar para impedir que um novo conflito ocorra novamente e com maior intensidade

Um primeiro confronto entre refugiados era uma questão de tempo. Na tarde de 3 de dezembro ocorreram confrontos com pedras e barras de metal entre os refugiados que não podem passar e os que o podem fazer. 4 pessoas ficaram feridas. A divisão já não se faz apenas com base nas nacionalidades, mas nesta "clivagem": os que podem passar e os que não o podem fazer. Se os iranianos estão organizados, os refugiados das nacionalidades que podem passar rapidamente se organizarão para romperem com o bloqueio. A necessidade criará a organização. A explosão de um sério conflito está para breve. Não é se, mas quando. A abertura total das fronteiras pelos Estados, mas em primeiro lugar pela Macedónia, é a primeira medida a se tomar para impedir que um novo conflito ocorra novamente e com maior intensidade. Mas as políticas europeia e grega vão no sentido oposto. A partir de 3 de dezembro a Frontex passará a atuar na fronteira greco-macedónica, registando os refugiados e fazendo a distinção entre os que podem passar e os que não o podem fazer. Os segundos serão reencaminhados para os seus países de origem.

Não há esperança em Edomeni, “só” desespero e uma acérrima luta pela sobrevivência. Nada mais

Perante esta situação as autoridades governamentais gregas colocaram um dispositivo de segurança, composto por cerca de 50 elementos da unidade de intervenção e da polícia fronteiriça, no campo. No entanto, são demasiado poucos para o conflito que irá ocorrer entre refugiados. A própria polícia não sabe o que fazer: deve reprimir os iranianos e abrir a fronteira? Deve ficar a assistir enquanto os refugiados se agridem violentamente? Que deve fazer? A solução não se encontra num nível micro, mas macro. Edomeni é “apenas” uma peça num grande puzzle. Entretanto, há o sério risco de vidas se perderem nos confrontos se nada for feito.

Perto das 3 horas de madrugada de 4 de dezembro a polícia aconselhou todos os voluntários que deveriam abandonar o campo por entenderem que a situação se poderia descontrolar facilmente a partir daquele momento. Os voluntários acataram o conselho das autoridades, mas com pesar e até com um sentimento de culpa por "abandonarem" os refugiados à sua sorte naquela noite.

Não há esperança em Edomeni, “só” desespero e uma acérrima luta pela sobrevivência. Nada mais.

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Sobre o/a autor(a)

Mestrando em Ciência Política
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