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Cada dia será um bico d’obra

Houve de tudo antes deste debate parlamentar: despedidas compungidas, anúncio de revisão constitucional, black-out de cenários todos estudados. Era tudo birra.

O país seguiu a sua vida e deixou os indignados esbracejarem sozinhos. Presos entre revelar a fanfarronada contra um putativo golpe de Estado (afinal era só fumaça) e o fingimento da sua própria indignação (ou repetir que o governo é ilegítimo), o PSD e CDS lá apresentaram a rejeição na esperança de se verem livres da sua própria berraria o mais depressa possível.

Os derrotados das eleições desconfiam evidentemente que a desforra pode estar mais longe por cada dia que nos aproximamos do Verão. Diz-lhes a insídia que Marcelo pode faltar a essa chamada e, entretanto, vigiam-se dentro das grades que armaram: Portas nunca mais se apresenta a eleições e Passos Coelho nunca mais falará de empobrecimento. Não sabem portanto o que dizer ao país.

Mais, emaranhados nas contas da sobretaxa, do Novo Banco, do trespasse dos transportes urbanos, PSD e CDS vão ser perseguidos pelo seu governo. Venderam empresas ao desbarato ao PC Chinês, empandeiraram a TAP e prometeram a Bruxelas cortar mais as pensões. Só pedem agora que esqueçamos tudo o que fizeram. E assim terminou o debate.

O governo mostrou também a sua força e fragilidade. Protege os salários e pensões e esse alívio vai sentir-se, tem impulso para o primeiro ano. Depois, confia na sorte e que a Europa nos esqueça. Mas não sabe o que fazer com a banca se o céu lhe cair em cima e, aí, não lhe sobra tempo.

Cada dia vai ser um bico d’obra. Pois ainda bem, afinal Portugal voltou a poder decidir. Como a direita resignada veio aceitar, deixemo-los trabalhar.

Artigo publicado em blogues.publico.pt a 3 de dezembro de 2015

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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