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Da derrota no PREC à primeira vitória da esquerda

A osmose do movimento popular com o movimento democrático nos quartéis determinou o desenrolar da luta e caracterizou, em absoluto, o PREC.

Nos 40 anos do 25 de novembro os seus reais vencedores – a direita conservadora ou mais reaccionária acobertada sob designações historicamente afirmadas como respeitáveis como social-democracia e democracia cristã (foram a social democracia e a democracia cristã, ambas então preponderantes, que construiram a CEE e logo a União Europeia ) - sofrem, finalmente, uma derrota histórica com a formação de um governo apoiado num acordo inédito entre o PS e as forças à sua esquerda - BE, PCP e PEV

Não por acaso, essa derrota foi determinada, na sua essência, pelas forças revolucionárias consequentes que vieram a formar o Bloco de Esquerda. Foi por iniciativa do Bloco – Catarina Martins desafiando Costa -que se desencadeou todo o processo político que determinou a derrota da direita e a concretização da alternativa à política de austeridade.

Foram aquelas forças que marcaram, com a sua acção radical, as características do PREC mas também protagonizaram o impasse político que levou ao beco sem saída rompido pela acção militar reaccionária que teve dois objectivos principais: 1) acabar com a democracia nos quartéis e, dessa forma, 2) destruir o elemento fundamental da dinâmica revolucionária protagonizada pela luta popular democrática e radical que resultou do 25 de Abril pelo derrube do fascismo e pelo fim da guerra colonial.

O golpe do 25 de Novembro foi preparado a partir do verão quente de 1975 quando o MFA começava a ser obrigado, pela luta popular e dos soldados, a dar passos maiores que a s suas próprias pernas.

De referência estabilizadora da instabilidade revolucionária o MFA passou a ser parte dessa mesma instabilidade como seria óbvio para quem não sonhasse fazer dele, a todo o custo, uma garantia de política de esquerda a la carte, como pretendia o PCP. Daí que a aliança entre o PS, a direita e os bombistas spinolistas tivesse passado a contar com um aliado improvável, o próprio PCP depois de um encontro entre Melo Antunes e Álvaro Cunhal (que, aliás, no seu livro “A Verdade e a Mentira na Revolução de Abril”, declara que o PCP teve uma vitória no 25 de Novembro). Para ambos era preciso liquidar a esquerda militar revolucionária gérmen de todos os males

O PREC foi possível - numa Europa artificialmente em paz consigo mesma, gerida pelo casamento do Plano Marshall com a NATO, num ambiente de guerra fria que impunha o “ou estás comigo ou estás com os outros” - porque o 25 de Abril, além de derrubar o fascismo e obrigar ao reconhecimento da derrota militar e a aceitar de facto e de jure a independência das colónias, rompeu o equilíbrio da hierarquia dando o sinal da desagregação das forças armadas sob a pressão do movimento popular e, portanto, da massa dos soldados e quadros progressistas.

A osmose do movimento popular com o movimento democrático nos quartéis determinou o desenrolar da luta e caracterizou, em absoluto, o PREC.

Sem isso a revolução democrática não teria tido as consequências que, apesar de tudo, teve: e não foram poucas, as conquistas de Abril que revolveram profundamente o tecido social e económico e político do nosso país e a promulgação de uma Constituição que continua a resistir a todas as tropelias.

A grande debilidade das forças radicais e revolucionárias que marcaram então o desenrolar da luta política para além do óbvio confronto inter-imperialista entre a direita mais o PS dum lado e o PCP do outro, foi a sua própria incapacidade teórica e “ideológica” para situarem o processo revolucionário português na sua circunstância histórica.

Outubro de 17 mantinha-se como referência incontestável quando a referência para qualquer transformação radical das sociedades ocidentais passara, devia ter passado, a ser o Maio de 68 que foi de facto, no século XX, o surto revolucionário que mais pôs em cheque toda a sociedade capitalista e os seus pressupostos ideológicos, que provocou a maior crise da civilização burguesa.

Curiosamente, durante o PREC, a referência ao Maio de 68 praticamente inexistiu e isto apesar de muitas figuras eminentes na política e na cultura terem estado exilados em França e terem tido papel na revolução; e apesar de ter sido o Maio de 68 a inspirar as lutas académicas de 69 que foram determinantes para minar a capacidade de combate do exército colonial e para a criação de condições no seu seio para o surgimento de um movimento de capitães, não apenas para acabar com a guerra que viram estar perdida, mas ainda para elaborarem uma estratégia e um programa ímpar de transformação política e social, o programa do MFA.

A estratégia e a táctica da revolução na Europa depois da II Guerra Mundial, teriam que ser delineados a partir das novas realidades nomeadamente a da guerra fria e a preponderância política da social-democracia que conseguira gerir o contrato social de forma a ganhar o apoio cada vez mais amplo e expressivo das massas populares e do proletariado.

Tal só seria perturbado radicalmente pelo movimento contra a guerra do Vietname de que decorreu em grande medida (numa associação premonitória do nosso 25 de Abril) o “Maio de 68”em todo o mundo, com expressão mais perene em França; ao mesmo tempo que eclodia a Primavera de Praga e o seu esmagamento pelos tanques do Pacto de Varsóvia pondo ainda mais em causa a retórica progressista da URSS e dando mais argumentos aos defensores da NATO.

No PREC, a social-democracia do PS intimidou-se face à democracia em todo o seu esplendor e capitulou (afinal, a luta popular impunha medidas que a própria social-democracia, liberta do fascismo, tinha instaurado na Europa, desde a reforma agrária às nacionalizações, ao Estado Social, etc.) e não foi capaz de resistir às ordens de um rapaz chamado Carlluci; o PCP viu no MFA uma boia de salvação numa Europa onde os PC’s passavam a euro-comunistas; e a escorrência salazarista começou a dominar o populismo adoptado pela ala liberal do marcelismo, vulgo PPD. Fez falta ao nosso PREC um Bloco de Esquerda, mas ainda não tinha chegado o seu tempo histórico.

Cá estamos, então, todos, nesta luta que continua com a esquerda finalmente a dar passos novos e históricos, esperamos que seguros.

Sobre o/a autor(a)

Coronel na reforma. Militar de Abril. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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