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Não assistimos a uma maior consciência sobre as alterações climáticas, porque são uma seca

Não me levem a mal, trabalho todos os dias na área das alterações climáticas e acho que este é o maior problema a ser resolvido pela humanidade no século XXI. É uma seca devido ao vilão e ao narrador deste problema.

Devido a pressões gigantescas provocadas pelas empresas que mais contribuem para a emissão de gases de efeito de estufa, os cientistas têm um discurso particularmente cauteloso que dificulta a sua compreensão pelos cidadãos e pelas cidadãs. Dando um exemplo, imaginem que um cientista vos está a descrever o aumento da concentração de dióxido de carbono na atmosfera, diria algo como: desde a revolução industrial a emissão de gases de efeito de estufa tem aumentado exponencialmente levando, desta forma, a que a concentração de dióxido de carbono nos dias de hoje seja maior que 400 partes por milhão”. Perdido? Ótimo. Como devem imaginar estas explicações cautelosas levam a que a sociedade se desinteresse por saber qual a causa por detrás das alterações climáticas e que medidas deverá tomar para as combater.

Quando as pessoas são questionadas sobre qual a causa e o que fazem para combater as alterações climáticas esta barreira ainda é mais evidente. É muitas vezes respondida como causa o aumento do buraco da camada de ozono e a reciclagem como solução. Claro que o buraco na camada de ozono é um problema e que a reciclagem é importante, mas não são nem causa maior nem solução das alterações climáticas.

Explicando sucintamente: Estamos a queimar combustíveis fósseis que libertam gases com efeito de estufa (em maioria dióxido de carbono) a um nível alucinante. Estes gases na atmosfera têm capacidade de conservar mais energia que é emitida pelo Sol do que o normal, funcionando como uma estufa (daí o nome) e aumentando a temperatura global do planeta.

Esta confusão é agravada devido à desconfiança que gera nas pessoas quanto ao papel da nossa sociedades nas alterações climáticas, enquanto por outro lado a esmagadora maioria dos cientistas climáticos concordam que as alterações climáticas estão a acontecer e que nós somos a maior causa por detrás destas.

Reforçando mais uma vez as pessoas não vêm estas questões claramente devido às empresas com claro interesse que uma mudança não aconteça – as empresas que perderão lucros caso uma estratégia diferente seja aplicada ao uso de combustíveis fósseis. Parece conspiração, mas de facto estas empresas já apresentaram falsos estudos e inventam qualquer história para sugerir que o aumento de gases de efeito de estufa é vantajoso e que as tecnologias verdes são perigosas para a população.

A estes ataques os cientistas respondem sempre com frases cuidadosas e seguras, como por exemplo, “o aumento de dióxido de carbono na atmosfera dará origem a um aumento de temperatura entre 1,4 e 2,6 graus celsius, com um intervalo de confiança de 90 por cento, até ao ano 2050”. A correta informação torna-se difícil de disseminar quando a contrainformação vem de histórias e “estudos” onde dados podem ser inventados ou mal interpretados que não necessitam de uma cuidadosa exposição de resultados.

A inércia da chegada de informação ao público torna-se ainda mais grave quando problemas tão urgentes como a acidificação dos oceanos, causada pela dissolução de dióxido de carbono da atmosfera nos oceanos, são praticamente desconhecidos. Este problema grave poderá afetar a nossa subsistência relativa a recursos vivos marinhos porque afetará a sobrevivência e abundância deste peixes a crustáceos. A sensibilização social sobre este problema ainda está nos seus primórdios, mas estudos que mostram a alteração qualidade e sabor de camarões mostraram à sociedade sueca que este problema vai parar-nos ao prato.

As alterações climáticas são na verdade como um filme sobre o fim do mundo. Um filme que em vez de um desastroso asteroide prestes a colidir com a Terra tem um conjunto de gases invisíveis e inodoros como problema e em vez de causarem a destruição iminente de todo o planeta causarão um aquecimento gradual ao longo de algumas décadas.

A nossa mente está claramente adaptada a lidar com perigos claros e iminentes, mas não é tão boa a lidar com previsões probabilísticas futuras . Para isso temos Governos, estes são feitos para  atuar com base a defender os nossos interesses comuns, especialmente no caso de problemas complexos a longo prazo.

Talvez a maior razão pela qual as alterações climáticas são uma seca é porque hoje sabemos qual é a causa do problema, a ciência já o descreveu bem e as soluções são mais do que óbvias, mas apesar disso as ações tomadas estão longe de ser as necessárias. Está então na hora de fazermos algo e sermos talvez capazes de mudar o rumo da história e torná-la em algo um pouco mais interessante.

Referências

Muller, Derek 2014 - Climate Change is Boring - Veritasium

Dupont, Sam et al. 2014 First Evidence of Altered Sensory Quality in a Shellfish Exposed to Decreased pH Relevant to Ocean Acidification – Journal of Shellfish Research

Sobre o/a autor(a)

Investigador
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