You are here

Os dilemas de Marcelo

Marcelo Rebelo de Sousa partiu para a campanha presidencial com uma grande vantagem. Mas ele também sabe que vivemos momentos de grande volatilidade e que a sua posição é mais frágil do que parece à primeira vista.

Marcelo Rebelo de Sousa partiu para a campanha presidencial com uma grande vantagem. A notoriedade que ganhou ao longo de muitos anos de intervenção pública e o papel de comentador deram-lhe a esperança confirmada pelas primeiras sondagens de chegar à vitória logo à primeira volta. Mas ele também sabe que vivemos momentos de grande volatilidade e que a sua posição é mais frágil do que parece à primeira vista. Desde logo porque a direita que representa é, do ponto de vista partidário, minoritária e para ser um candidato com potencial ganhador ele precisa de entrar no eleitorado de esquerda. Em circunstâncias diferentes isso até poderia acontecer com facilidade, mas tudo parece complicar-se à medida que o tempo passa.

Aparentemente vive-se um momento de viragem no que respeita à arrumação das forças políticas e à sua correspondência com as expectativas dos diferentes sectores da sociedade. A política de austeridade desestruturou as condições de vida de muitas camadas da população (em particular das classes médias) ao retirar-lhes emprego, proteção do Estado Social, habitação ou uma expectativa de carreira profissional. É isto que está na base da profunda erosão experimentada pelos partidos do “centro” e é isto que pôs seriamente em causa a orientação das últimas décadas dos partidos socialistas, baseada na aliança em condições de subalternidade com a direita em toda a Europa.

O consenso social que essa aliança pressupunha desfez-se no momento em que a agenda neoliberal consumou grande parte do projeto de liberalização de todos os mercados e de privatização da maioria das áreas de atividade, e tende a ser substituído por uma polarização entre esquerda e direita, por vezes dando protagonismo a versões mais radicais de uma e da outra. Tudo isto significa que a progressão do Bloco de Esquerda em Portugal, ou do Podemos em Espanha e a constituição do Syriza na Grécia, mas também da Frente Nacional em França e da extrema-direita noutros países fazem parte do mesmo fenómeno de radicalização política.

Se é certo que Marcelo representa uma direita de valores assumidamente muito conservadores, também é verdade que foi fazendo tudo o que podia para construir pontes que lhe permitissem chegar a outros segmentos da população, ou para se tornar o mais “neutro” possível. Vejam-se, por exemplo, as incursões na Festa do Avante ou o tom por vezes conciliador dos seus comentários. Mas a fratura política entre esquerda e direita não o ajuda, porque esvazia o espaço onde poderia jogar aquela cartada de figura supostamente consensual, acima das ideologias ou mesmo dos partidos, que lhe permitiria penetrar em todas as faixas da opinião pública por intermédio de uma onda de grande popularidade.

Uma ilustração muito clara deste incómodo vem-se exprimindo na forma tímida como se posicionou na questão de conflito entre Assembleia da República e Presidência da República a propósito do novo governo, em contraste com todos os outros candidatos. Marcelo sabe que constitucionalmente a única saída defensável é a aceitação da vontade do Parlamento, expressa pelo derrube do governo de Passos Coelho e pela solução construída à esquerda. Mas, a crispação política da direita exige-lhe fidelidade à ideia de confronto e não faltaram ultimatos ou movimentações que desenterraram a ameaça de novas candidaturas à direita (Santana Lopes, Rui Rio).

Para além destes constrangimentos impostos por uma conjuntura que não pode contornar, Marcelo enfrenta uma outra contradição criada pela sua própria natureza. Ele faz parte de uma elite com tradições na vida política portuguesa que remontam ao anterior regime de Salazar e Caetano. Para aliviar essa carga elitista, criou uma marca no mercado mediático que lhe permite chegar junto do cidadão comum com uma auréola de produto de consumo massificado, opinando sobre coisas tão diversas como táticas de futebol ou o valor de determinadas obras da criação literária, sempre numa posição de liderança.

Se é certo que esta operação lhe tem dado um contacto e um reconhecimento público grandes (por vezes parecidos com os que Mário Soares conquistou nos seus bons tempos), também é verdade que isso o colocou numa postura ansiosa e populista que vulgariza as qualidades que poderiam fazer sobressair a sua candidatura. Marcelo tornou-se um alvo tão fácil de atingir como qualquer outro candidato e se a desconstrução do seu modelo de candidatura for feita de forma conveniente o efeito-desilusão pode progredir rapidamente.

Isto significa que está tudo em aberto no que toca às presidenciais. Uma segunda volta torna-se cada vez mais verosímil e há uma elevada margem de progressão para candidaturas com potencial fraturante que explorem a dicotomia entre esquerda e direita e sejam capazes de dar resposta aos grandes problemas da maioria dos portugueses e das portuguesas. Trata-se de prolongar nas presidenciais a dinâmica que ajudou a derrubar o governo da coligação de direita. Essa é a função de Marisa Matias, calha-lhe aproveitar os dilemas de Marcelo. E ela já deu provas, noutras oportunidades, de que estará à altura de corresponder com grande eficácia às exigências deste desafio.

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Dirigente do Bloco de Esquerda.
(...)