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Voltaire e o "reflexo Bush"

É um sarcasmo sádico fazer um memorial de terror a Voltaire, filósofo da liberdade pessoal, da tolerância dos pensamentos e das religiões.

Quis uma ironia trágica que o maior massacre de Paris, em 13 de novembro, acontecesse no Boulevard Voltaire, no salão do Bataclan. É um sarcasmo sádico fazer um memorial de terror a Voltaire, filósofo da liberdade pessoal, da tolerância dos pensamentos e das religiões. Ele, que foi um dos cicerones da modernidade teve o seu espaço mártir, sangrado pelos fanáticos da jihad, dos inimigos do fundo dos tempos,dos carrascos da luz e da razão.

Respeitar o legado de Voltaire marca um rumo. A democracia não prescinde das garantias constitucionais dos cidadãos

Somos carne e sangue de todas as vítimas, a solidariedade cruza-se com a veemência da perseguição dos criminosos. A partir daqui, respeitar o legado de Voltaire marca um rumo. A democracia não prescinde das garantias constitucionais dos cidadãos.

É incompreensível que o governo francês queira estabelecer por largos meses uma licença à polícia para dispor de quaisquer domicílios ou espaços comerciais, deter quaisquer indivíduos sem indícios de ilícitos. As diretrizes de Hollande, e as alterações legais que leva a cabo, recordam o Patriot Act de Bush. Uma lei de exceção, parte dela ainda em vigor depois de reconfirmada por Obama, que permite prender, vigiar, intersetar comunicações para combater o terrorismo, mesmo sem suspeita ou validação judicial. Esta é uma vitória antecipada de Le Pen e da extrema-direita francesa.

É incompreensível que o governo francês queira estabelecer por largos meses uma licença à polícia para dispor de quaisquer domicílios ou espaços comerciais, deter quaisquer indivíduos sem indícios de ilícitos. As diretrizes de Hollande, e as alterações legais que leva a cabo, recordam o Patriot Act de Bush

A magistratura pode sempre orientar operações de segurança, e medidas de forte repressão, sem levantar as garantias constitucionais de cada uma e de cada um. O Presidente francês lamenta-se, ainda assim, de não ter podido estabelecer o Estado de sítio por embaraço constitucional, que quer remover agora, para dar à tropa as mesmas prerrogativas da polícia.

Este não é o único reflexo condicionado do 11 de setembro na retaliação de George W. Bush. O conjunto dos assassinatos do 13 de novembro foram totalmente atribuídos a uma agressão externa, omitindo os autores franceses dos crimes, e enquadrados numa guerra ao terror como qualquer guerra convencional. Aliás, a França pediu, e obteve, a solidariedade militar dos estados da UE, incluindo claro Portugal.

Bush em 2001 desencadeou o mesmo mecanismo no âmbito da NATO. Bush partiu para bombardear os talibãs afegãos que anos mais tarde os EUA reporiam no poder. E depois tivemos a tragédia do Iraque.

Hollande faz hoje o mesmo papel de aprendiz de feiticeiro como Bush o tinha feito com os talibãs seus ex-aliados na guerra afegã contra a União Soviética. Importa não esquecer que a Arábia Saudita financiou e financia uns e outros

Agora já tínhamos a tragédia da Síria, intensificaram-se os bombardeamentos na Síria sobre o Daesh, quer da França, como dos EUA ou da Rússia. Recorde-se que a França apoiou o grupo que deu origem ao autoproclamado Estado Islâmico, o Daesh, contra Assad no poder na Síria.

Hollande faz hoje o mesmo papel de aprendiz de feiticeiro como Bush o tinha feito com os talibãs seus ex-aliados na guerra afegã contra a União Soviética. Importa não esquecer que a Arábia Saudita financiou e financia uns e outros.

A resposta na Síria é bem outra: através da comunidade internacional impedir a venda de petróleo e compra de armas do Daesh, armar e apoiar os curdos que fazem a sua defesa da agressão fascista do Daesh e a sua luta de libertação nacional, sancionar a Turquia pelos massacres dos curdos.

Se há apelo forte a fazer à França, e ao protagonismo da esquerda francesa, é que sigam a lição de Voltaire, castiguem e reprimam os criminosos sem abdicar das liberdades fundamentais

Vem longe o armistício mas não são os bombardeamentos que resolvem a segurança das populações em França. Mesmo uma cultura inclusiva na sociedade francesa precisa de provas de que o país-República não é o bombardeiro de vários estados vinculados ao crescente.

Se há apelo forte a fazer à França, e ao protagonismo da esquerda francesa, é que sigam a lição de Voltaire, castiguem e reprimam os criminosos sem abdicar das liberdades fundamentais. Sigam Voltaire para que a crítica vença as trevas. Sigam Voltaire e não o efeito Bush, a armadilha imperialista perfidamente trilhada pelo inquilino do Eliseu.

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda, professor.
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