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Conservatório Nacional: elogio à resistência

A Escola de Música do Conservatório Nacional tem sido notícia na última semana e não pelas melhores razões. A falta de verbas e de condições materiais para manter o seu normal funcionamento obrigou a direção da escola.

Estamos a falar de uma instituição com 179 anos de existência, que formou milhares de músicos em Portugal, alguns deles com reconhecimento nacional e internacional e vencedores de prémios na área da música.

Se me encontrasse hoje, no mesmo lugar em que se encontra a Direção do Conservatório Nacional, teria a mesma atitude e procuraria uma solução rápida para um problema que é urgente. O problema, porém, é outro: garantir que nenhuma direção de nenhuma escola de ensino artístico especializado seja obrigada a recorrer a doações solidárias para sobreviver. E a solução passa sim, por assegurar que o Ensino Artístico não sobrevive com esmolas nem encontra como motor do seu financiamento a solidariedade daqueles que decidiram apoiar o Conservatório, impedindo que ele fechasse portas.

Se houve setor da Educação que foi espezinhado pelos quatro anos de governação à direita foi o Ensino Artístico. Os cortes no seu financiamento e o modelo de gestão do próprio, as constantes alterações aos planos curriculares: tudo apontava para uma transformação radical no cariz deste serviço público, moldando o ensino das artes a meros cursos profissionais, com pouco investimento e com um único sentido para existir: ensinar a executar sem ensinar a pensar.

A grande batalha que hoje se trava contra o neoliberalismo e o conservadorismo na área da Educação Pública passa por exigir que o Ensino Artístico Especializado seja respeitado nas duas dotações orçamentais, nos seus planos curriculares e na sua natureza: ensinar a partir da arte, oferecer instrumentos de pensamento para desenvolver capacidades de criatividade e sentido crítico, juntamente com uma aprendizagem apoiada no ensino da(s) técnica(s).

A Escola de Música do Conservatório Nacional é um exemplo de resistências às políticas de Excel que os agentes políticos do discurso austeritário impuseram ao país. O virar de página que se vive desde o dia 4 de Outubro é um bom prenúncio para o Ensino Artístico, que grita hoje por mais apoio e respeito.

Sobre o/a autor(a)

Museólogo. Deputado e membro da Comissão Política do Bloco de Esquerda.
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