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Um governo decente

Escrevo este texto uma hora depois do anúncio formal do apoio do Comité Central ao Governo de iniciativa PS com apoio do BE e da CDU. Este acordo é histórico e tem um significado poderoso: é possível um compromisso contra o empobrecimento e a austeridade.

Escrevo este texto uma hora depois do anúncio formal do apoio do Comité Central ao Governo de iniciativa PS com apoio do BE e da CDU. Poderia tecer várias considerações sobre o papel mais ou menos construtivo dos diversos intervenientes. Mas, por prudência, vou apenas salientar o papel crucial que o BE desempenhou, particularmente através das declarações públicas da sua coordenadora, para manter a pressão certa no tempo certo e para promover a solução encontrada. Foi oportuno e decisivo.

Este acordo é histórico e tem um significado poderoso: é possível um compromisso contra o empobrecimento e a austeridade. É possível iniciar um caminho de reposição de rendimento e de reconquista de alguns direitos. É possível a democracia funcionar de outra forma, sem a captura permanente das elites. É possível converter votos em medidas concretas de justiça. Em suma: é possível.

Não se trata, é sabido, de transformar a paisagem social portuguesa de forma global. Para isso, o acordo teria de ser máximo e de questionar a fundo a ordem europeia. Mas é uma base para um Governo decente: que não privatiza; que defende os serviços públicos; que repõe salários e pensões; que estabelece alguma dignidade para o mundo do trabalho; que protege as famílias contra a fúria dos bancos, que considera a saúde e a educação públicas.

Teria sido melhor um acordo único entre as três forças políticas. É necessária a máxima força para o que aí vem: a pressão dos poderes financeiros e seus contratados. É fundamental a coordenação política e, acima de tudo, a vontade de aprofundar com competência e imaginação as bases deste acordo.

Trata-se de um início: talvez agora seja possível mudar aos poucos a “direita mental” que se instalou em Portugal e que só sabe falar com a privatização dos bens comuns; as conhecidas “reformas” contra o trabalho; a obediência a Berlim e a lei da concentração da riqueza.

Sobre o/a autor(a)

Sociólogo, professor universitário, Presidente da Associação Portuguesa de Sociologia. Dirigente do Bloco de Esquerda.
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