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Votar no Bloco, suficiente e necessário

Indignada com as palavras exclusivas sobre um milhão de portugueses do Presidente da República e sob o ritmo dos acontecimentos destes dias, reuni algumas ideias avulso que me parecem oportunas.

Como repetimos incansavelmente durante o período eleitoral, um voto no Bloco não seria desperdício e podia inverter o rumo da política nacional

1. Faltam cerca de setenta e duas horas para o desfecho de umas negociações que nos têm deixado suspensos, ansiosos e muito expectantes. Como repetimos incansavelmente durante o período eleitoral, um voto no Bloco não seria desperdício e podia inverter o rumo da política nacional. Uma resposta óbvia ao desabafo “mas vocês são tão poucos!”. Está à vista e está à beira de acontecer. Acreditamos que se está a escrever uma página nova, que se entra no futuro. Por isso, a direita está descontrolada. Não se trata apenas de uma questão de concordar ou discordar. Colocando-se sempre no mesmo ângulo para fazer a leitura dos dias, a direita ficou encurralada por posicionamentos que se alteraram e por desenvolvimentos que não compreendem. Ninguém consegue perceber um processo novo pelas regras da cartilha antiga. Nesta sua leitura inconseguida, vêm à tona as convicções mais arreigadas, os chavões que assustam os menos preparados e fazem aumentar o cortejo dos facciosos. Poderiam fazer uma leitura que correspondesse à realidade concluindo daí a sua oposição e esta atitude lógica seria legítima. Mas não renovando os parâmetros do seu raciocínio e da sua abordagem, brandam os argumentos mais retrógrados. Eis senão quando Freitas do Amaral, figura da área da direita, vem e diz que é lamentável que se ergam vozes contra esta maioria parlamentar de esquerda, constitucional, e que, bem lá no fundo, o que sustenta aquela vozearia é o temor de verem mais impostos e mais proteção social. Ficou dito. De facto, perder o poder custa e causa rancor.

Este Governo cai para a semana e ainda vai legislar para ter a certeza que os cortes na Função Pública continuam. Até ao fim, vingativos, a deixar o ferrete

2. De regras, falou Varoufakis e zombou. Cavaco também fala de regras mas não zomba. São regras, senhor. Para cumprir doa a quem doer. E como doem aos pensionistas e reformados com rendimento inferior a 600 € e aos precários, e aos desempregados sem apoio do Estado, e aos funcionários públicos, e aos trabalhadores com Salário Mínimo Nacional. Estas vozes não chegam aos palácios, não incomodam quem se precaveu sobre os escombros alheios. Só lhes dói mesmo quando, obrigados, estão a emalar a trouxa. Este Governo cai para a semana e ainda vai legislar para ter a certeza que os cortes na Função Pública continuam. Até ao fim, vingativos, a deixar o ferrete. Como é que homens e mulheres comuns, fora dos meandros palacianos lhes deram os votos e ainda criticam as negociações à esquerda e a viabilização do acordo? Que desígnio é este?

A mancha é conservadora e temente à mudança. Todos aplaudem a mudança enquanto está longe e é duvidosa

3. Com o acordo no horizonte, a irritação não se confina aos políticos. Jornalistas, comentadores, pivots dos noticiários televisivos, todos se enervam. Fazem perguntas em turbilhão, levantam o tom de voz, interrompem os entrevistados. Afinal, o que sabem os entrevistados?! Eles, a trabalhar para este ou aquele canal televisivo ou radiofónico, sabem, conhecem, dominam, têm propostas. Há uns que exageram, ambicionam o estrelato. Talvez um ou dois não se deixaram confundir com a situação atual e, independentemente da sua opção ideológica e política, mantêm o profissionalismo. Mas como são poucos! A mancha é conservadora e temente à mudança. Todos aplaudem a mudança enquanto está longe e é duvidosa. Mas se a mudança e a alternativa política se perfilam no horizonte evidenciando que têm pés para andar, aí arrepiam caminho e desatam a esbracejar. Têm técnicas várias e a minha preferida é aquela de, sustendo a respiração, fazerem perguntas-verdadeiras-intervenções sem deixar o convidado falar. Isto passa-se nas entrevistas, nos debates, nos frente-a-frente. “Não me respondeu à pergunta…” ou “ pedia-lhe uma resposta objetiva…” E os convidados estoicamente aguentam, mantêm a fleuma (nem poderia ser de outra maneira) enquanto tentam não perder o fio condutor dos seus raciocínios e argumentação. Às vezes os jornalistas chegam mesmo a ser inconvenientes e atrevem-se a dizer “já lhe ouvi essa resposta” ou “esse argumento é o que tem usado nas últimas entrevistas”. De facto, a ética profissional é uma coisa aborrecida.

Sobre o/a autor(a)

Bibliotecária aposentada. Activista do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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