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Assis(tir) ao jogo

Francisco Assis inaugura, seguramente, a primeira de muitas parcerias público-privadas comunicacionais com alguns dos seus "camaradas" de partido. Sábado, à mesa, discutir-se-á o futuro do PS.

O lado para onde o vento sopra é um fenómeno natural, volátil mas compreensível à luz das ciências da atmosfera. Num mundo de zeros e uns, tão carregado de previsibilidade e de adequados comportamentos, saúdam-se as denominadas "lufadas de ar fresco". O resultado destas eleições está a revelar-se uma autêntica lição de democracia para alguns, pelo que é evidente que para esses alguns o vento sopra, denominado de golpista e agreste pelos "observadores", em redemoinho. Atente-se mais ao mapa do que à lateralidade da esquerda/direita: no centro do país político há gente a ser levada pelo vento e que vem a jogo. E é nestes momentos que se torna legítimo assobiar a "Trova do vento que passa" e, na tempestade, observar Assis.

O eurodeputado socialista vai, anuncia-se, reunir apaniguados na Las Vegas dos leitões. Consigo imaginar o autor da brilhante ideia e os aplausos ululantes: "se queremos puxar o país ao centro, reunamos no centro do país", terá dito. Ideia genial, Mealhada. Coordenadas, precisam-se, para o senhor. Francisco Assis inaugura, seguramente, a primeira de muitas parcerias público-privadas comunicacionais com alguns dos seus "camaradas" de partido. Sábado, à mesa, discutir-se-á o futuro do PS. A punho cerrado, mas baixo, traçar-se-ão as mais importantes linhas estratégicas alternativas a apresentar ao Congresso Socialista após as eleições presidenciais. Haverá ordem de encomenda. As correntes de aço inoxidável serão a grande tendência invernal de Assis, procurando resistir às agruras e à corrosão do seu particular inverno socialista, perante um PS que (pasme-se!) governe à esquerda no poder. A dor do momento, a exclusão das listas parlamentares. Imagino a força do vento. Que sábado esse, grandioso, recheado de magnas questões para o país, esse, o que se revelará na coligação particular de Assis. De repente, se o vento sopra um pouco mais por um instante, naquele em que se encosta de supetão à face, dir-se-ia PàF, não fossem seguristas, desavindos ou proscritos a assegurar que não ou nem pensar. Quando todo o PS deveria estar a debater as grandes questões nacionais, eis que parte do PS se encontra a discutir as suas típicas questões comensais.

E todos assistimos ao jogo. Imediatamente após as eleições, Assis assegurava a necessidade de "evitar a tribalização do partido, a sua transformação num espaço de confronto de claques, a consagração da disputa personalizada". Agora, Assis prepara uma candidatura ao partido no momento em que se decide o futuro da governação do país. Em Fevereiro de 2013, Assis defendia que se o PS vencesse as eleições legislativas que se seguiriam, sem uma maioria absoluta, "devia coligar-se com os partidos de direita". Em 2011, quando disputou a liderança com António José Seguro, defendia alianças à esquerda nas eleições autárquicas para "iniciar um diálogo construtivo com o PCP e o BE", de forma a "superar a dificuldade histórica de relacionamento que prejudica as opções dos eleitores de esquerda". Suponho que, para Assis, as posições do PCP e do BE sobre a Europa e a NATO tenham mudado significativamente desde 2011. Só isso me fará perceber que não é a ventania que faz girar um cata-vento.

"Mesmo no tempo mais triste / Em tempo de servidão". A inteligência de Francisco Assis é inquestionável mesmo quando a inteligência lhe dá para isto. António Barreto, pensador e cientista social, também se tem enganado nos exemplos. Teixeira dos Santos, a correr contra o tempo, apressa-se a aconselhar o Governo a aprovar uma lei autónoma para evitar que os cortes salariais na Função Pública sejam suprimidos em Janeiro, face a um Orçamento de Estado que - previsivelmente - só entrará em vigor em Março de 2016. "Há sempre alguém que resiste". Mesmo pelos piores motivos. O novo ministro Calvão da Silva (é preciso dizer mais?...) ainda foi a tempo de entrar no anedotário político quando reage às cheias algarvias como aquele avô que descompõe um neto depois de uma traquinice inconsequente, "uma lição de vida" porque "Deus nem sempre é amigo", que o seguro morreu de velho. "Há sempre alguém que diz não". Soma-se uma bela lição democrática e constitucional para os nomeadores de "boys" ultra-sónicos em fim de mandato: a esquerda parlamentar soma 50,7% nas últimas eleições e o acordo é já dado como inevitável. Como o vento que sopra.

Artigo publicado no “Jornal de Notícias” de 3 de novembro de 2015

Sobre o/a autor(a)

Músico e jurista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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