You are here

Cheias de deus pai, filho e do Espírito Santo

De fatinho de seda e galochas, se colocou em apressada caminhada pelos destroços de Albufeira o sr. Ministro da Administração Interna, João Calvão da Silva. Perante as catastróficas cheias que inundaram a baixa da cidade, as piores desde os anos 50 do século passado, o Dr. foi perentório: obra do demo. Cruzes, credo, canhoto.

Calvão da Silva anunciou, numa mistura cristã-pagã, que “A fúria da natureza não foi nossa amiga”, que “Deus nem sempre é amigo” e que as cheias em Albufeira eram um teste, um “período de provação”. Culpas a expiar, seguramente. Calvão sabe que o país pecou ao não reconduzir o governo Passos-Portas com a maioria absoluta que garantiria a absolvição de todos os pecados, a expiação das culpas da nação lusa só alcançável pela recondução dos cilícios e pela mendicidade conformada.

Estando neste momento num purgatório com 9 dias marcados, o atual governo reitera a sua crença na intervenção divina, depois de Assunção Cristas ter referido que aceitava participar no governo por inspiração na figura e nas penas de Jesus Cristo e de Passos Coelho ter anunciado em campanha eleitoral, muito para surpresa do seu ex-empregador e mentor Ângelo Correia, que não se conseguia separar do seu crucifixo.

Nada para demonstrar o respeito pelo Republicanismo Laico como a profissão de fé em figuras divinas, em forças animistas, em símbolos de adoração e, claro no Espírito Santo.

Voltando ao recém-empossado ministro da Administração Interna que coloca a Proteção Civil exposta à fúria de um qualquer Pã ou Poseidon, sabe-se que se unia ao presidente da Câmara Municipal, também laranja de seu credo, na tentativa de evitar declarar o estado de calamidade pública, que o Algarve precisa de turistas e não de calamidades. E, aliás, quem são os homens ou os governantes para contrariar a vontade divina? Terá sido certamente a inspiração do além que levou à construção em leito de cheia e à impermeabilização das zonas de infiltração máxima da cidade de Albufeira. Cumpriu-se portanto apenas a vontade divina, de Thor, Gaia ou até Rá. Aliás, o país no seu todo cumpre obedientemente estas regras de construção divina e acimenta todos os solos para garantir a vontade dos deuses.

Iluminou-se entretanto uma qualquer árvore ou uma estátua chorou sangue, porque já foi finalmente accionado o estado de calamidade pública, permitindo mobilizar meios humanos para lidar com este “Ato de Deus”. Aleluia.

Calvão da Silva lamenta que, perante a “fúria demoníaca da natureza” não se tenham os habitantes e os comerciantes de Albufeira prevenido com uma penitência na forma de tesouro de mérito (neste caso uma indulgência ou seguro à Munich Re, à Tranquilidade ou à Açoreana) contra os maus feitos de Belzebu. Perante as hereges teses de que existem alterações climáticas, nada melhor que invocar o nome do(s) Senhor(es) das companhias de seguro e deixar cair a presunção humana de ter um Estado que responda às necessidades das populações.

A piedade de Calvão da Silva vem de longe provada, atestando que deus ajuda aqueles que se ajudam a si mesmo. Ninguém se pode esquecer de como julgava em 2013 em parecer o senhor jurista: distribuía idoneidade a Ricardo Salgado e louvava-lhe o “espírito de entreajuda e solidariedade” partilhada com o grande construtor José Guilherme. Aos dois amigos não se lhes podia censurar por terem “gosto em dar sugestões, conselho ou informações a outro amigo”, e naturalmente remunerá-las com 14 milhões de euros não declarados. Pois não era Ricardo Salgado, além de diretamente relacionado com a trindade, por via da sua herança de Espírito Santo, o Dono Disto Tudo? Ninguém poderia alguma vez ser dono disto tudo sem licença divina. Em nome do pai do filho e do Espírito Santo Salgado.

Sobre o/a autor(a)

Investigador em Alterações Climáticas. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
Comentários (3)